Foto: Anderson Moreira

“A cultura é a alma e a arma de todo o povo que luta”

Por Anderson Moreira, do Cefuria (Centro de Formação Urbano Rural Irmã Araújo)

A cultura como estratégia de luta para o campo e a cidade foi o eixo do seminário que discutiu os caminhos na construção de uma cultura política emancipatória, realizado nessa sexta-feira (8). O debate integrou a programação da 17ª Jornada de Agroecologia.

As expressões que representam bem o campo e a cidade “A lagarta tá comendo a nossa horta” e “O baguio é loco e o processo é lento”, deram o tom inicial da fala de Juliana Bonassa, coordenadora do Coletivo Nacional de Cultura do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Para ela, falar de cultura é falar de combate, é um enfrentamento, tal qual a nossa luta cotidiana. “A cultura é toda a produção e reprodução da nossa existência. Em se tratando de MST, é eixo primordial da luta”, afirmou.

Juliana enfatizou que falar de cultura é mais do que falar sobre a arte – esta é apenas uma parte da cultura, elas se complementam. “Cultura é política, não existe nenhum debate sério sobre cultura se não falarmos de política”, afirmou. 

Juliana Bonassa | Fotos: Anderson Moreira

A estratégia para o fortalecimento da cultura como instrumento de luta política, de acordo com Juliana, é o seu enraizamento por meio de um processo de trabalho de base. Neste sentido, a formação é fundamental, em todos os campos, e ela deve acontecer desde o início, logo na infância. A partir deste enraizamento será possível combater a LGBT fobia, o machismo, o racismo, e todas as outras formas de opressão. “A cultura é a alma e a arma de todo o povo que luta. Não existe luta sem uma cultura política que busca emancipação”, ressaltou Juliana.

Construção de nova cultura política na capital mineira

Nas eleições municipais de 2016, 14 mulheres negras, indígenas, jovens e LGBTs disputaram vagas para a Câmara dos Vereadores de Belo Horizonte (MG). Diferente das demais candidaturas, umas pediam votos para as outras, e duas se elegeram: Áurea Carolina e Cida Falabella, ambas do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL). 

A partir daí, estabeleceram um mandato baseado no princípio do compartilhamento de poder, apelidado de “Gabinetona”. O coletivo, então, decidiu criar a função de  “co-vereadora”, ocupada por Bella Gonçalves, que ficou na suplência de Cida. Os eixos centrais do mandato são direito à cidade, cultura viva e direitos humanos.

A co-vereadora é militante da luta pelas ocupações urbanas na capital mineira, integrante das Brigadas Populares. Bella destacou a luta da Comunidade Dandara que, segundo ela, inaugurou um ciclo de importantes ocupações de terra em Belo Horizonte e que deu origem a diversas outras. Outro exemplo de resistência é a Ocupação Izidora, que existe desde 2013 e reúne mais de 30 mil pessoas. A luta da ocupação foi fortalecida a partir da articulação de uma rede de cultura, chamada Resiste Izidora.

Além de contribuir para o fortalecimento da luta por terra e moradia, o mandato coletivo busca incentivar iniciativas culturais e propor leis de incentivo à cultura.

Bella avalia que numa conjuntura em que vemos nossa democracia ser atacada é preciso pensar qual a importância de ocupar os espaços de poder. As lógicas políticas nos excluem, diz ela, e apostar apenas no institucional é um risco. Para ela, os mandatos de luta têm a tarefa de dialogar com o povo, com as pessoas, sobre a importância de participar dos processos políticos. “A política dos políticos gosta de nos fazer espectadores da barbárie. Espectadores da barbárie são aqueles que ficam apenas observando de longe. Precisamos construir um novo processo político, em que sejamos atrizes e atores”, concluiu.

Bella Gonçalves | Foto: Anderson Moreira

 

Foto: Anderson Moreira


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