Guardiões de sementes: a preservação do meio ambiente e da vida para toda população

Conheça a visão de mundo e o compromisso com a biodiversidade de guardiãs e guardiões paranaenses

*Lizely Borges e Luiza Damigo | Foto: Thais Engenmann

A prática tem origem milenar. No entanto, com a forte incidência das corporações multinacionais no controle dos alimentos e a flexibilização do uso dos agrotóxicos, a guarda das diversidade de variedades alimentares, puras e não contaminadas, é necessidade urgente.

São as mulheres e homens campesinos – nomeados como guardiãs e guardiões – que resgatam, cuidam, melhoram e preservam a diversidade de alimentos. Nesta prática enfrentam à um modelo hegemônico agrícola, que se sustenta no uso de venenos, nas relações de esgotamento e contaminação da terra e da água, na exploração da força de trabalho da e do trabalhador rural.

Durante a 18ª Jornada de Agroecologia do Paraná, realizada em Curitiba (PR), entre os dias 29 de agosto a 01 de setembro, sentamos para escutar a sabedoria dessas mulheres e homens. Um pouquinho dessas conversas compartilhamos abaixo. 

Ana Andrea Jantara | Município de Palmeira, região centro sul 

Em uma mistura de alegria e satisfação, Andrea Jantara conta sobre seu primeiro milho multiplicado, momento em que começa a se reconhecer como guardiã de sementes crioulas. A variedade do milho Tunicata veio da conhecida Casa da Semente de Seu Isaac e Dona Vilma Miola, município de Dois Vizinhos, sudoeste do estado.

Ana protege e cultiva 26 variedades de sementes crioulas / Foto: Lizely Borges

Filha de agricultores familiares que foi para a cidade estudar e trabalhar, Andrea se reconecta às sementes através das Festas e Feiras Regionais, espaços fundamentais de diálogo com a sociedade – do campo e da cidade, assim como a Jornada de Agroecologia. “Ao vivenciar as feiras aprendemos a amar a vida, que são as sementes crioulas”. E foi numa delas que ganhou alguns grãos do Tunicata, doados pelo casal Miola ao Coletivo Triunfo e acolhido por ela. Empalhado grão a grão e protegido por mais uma camada de palha por fora, o milho, nas variações branca e roxa, se destaca por sua beleza única.

Plantou, colheu, multiplicou. E assim já entra no terceiro ano de cuidado com as sementes, que são como filhas. Milho doce, pipoca, flores e hortaliças somam hoje 26 variedades protegidas e cultivadas por Andrea. “A base para uma alimentação saudável são as sementes crioulas. Porque ela é pura, livre de transgênicos e agrotóxicos, a humanidade começou com elas, com as sementes crioulas tradicionais. Não há outra maneira, sem elas não há vida.”

Antônio Carlos Santos I Município de São João Triunfo

A fala mansa e simples do Seu Taborda, como é conhecido, diz muito sobre sua duradoura e estreita relação no trato responsável da terra. O senhor de 75 anos que diz ter “ter uma lavoura por toda a vida” que oportunize que coma o que produz e assim “não carece comprar no mercado o que nem sabe que está comprando” compreende que ser guardião de semente é zelar por tudo que se relaciona com o alimento.

Aos 75 anos, Taborda se orgulha de comer comida saudável cultivada por ele / Foto: Lizely Borges

“Tem três coisas que o guardião precisa adorar: primeiramente a terra, que é a nossa mãe, ela produz a vida, produz tudo. Sem a água a pessoa morre também, e o oxigênio”, diz. Ele que diz plantar desde antes de ter esse “negócio da transgenia”, sabe a importância de preservar a semente e natureza, garantir a sobrevivência dos animais – “tudo que é bichinho tem sua utilidade, não podemos matar, ele também precisa sobreviver”- e de deixar, com o devido apoio, a tarefa de produção de alimento saudável para quem sabe produzir. O ônus de produzir de uma forma não agroecológica é sentido na saúde, nos cofres públicos e pela natureza.

“A pessoa que come veneno, de coisa de mercado, fica doente fácil. Tem um posto de saúde que não vence, o médico chega a ficar louco. A prefeitura tem que pagar o médico, pagar o medicamento, levar pra cidade grande pra tratar. Então por que o governo não investe na alimentação sem veneno, que é isso que a gente sabe fazer. Eu sei fazer”, diz orgulhoso.

Silvestre de Oliveira Santos | Município de Fernandes Pinheiro,

centro sul

O reconhecimento veio em 2012, em uma viagem a Pelotas, no Rio Grande do Sul, junto com o Coletivo Triunfo. Apesar de trabalhar com sementes crioulas desde adolescente, herança vinda da família do centro sul paranaense, receber o certificado de Guardião de Sementes Crioulas e da Agrobiodiversidade foi importante pois criou uma identidade que antes não existia. “Mudou a maneira como nós nos vemos e as outras pessoas também, conseguimos nos unir mais”.

Silvestre é guardião de sementes desde adolescente / Foto: Lizely Borges

O olhar sereno e confiante de Seu Silvestre de Oliveira Santos volta à Casa da Semente, em Fernandes Pinheiro, onde mais de 100 variedades de milho, feijão, arroz, mandioca, batata doce, hortaliças, abóbora e “do pinhão em diante” são cuidadosamente armazenadas pela família. A atenção se volta ao milho, que vem sendo sistematicamente contaminado pelos transgênicos e exige cuidados especiais com a época de plantio (para evitar a contaminação cruzada), armazenamento e até mesmo nas trocas e entrada de novas variedades na Casa da Semente, organizada comunitariamente entre as e os integrantes do Coletivo Triunfo.

Para o guardião, “o milho é como se fosse uma criança que você tem que cuidar sempre, precisa acompanhar, é diferente de outras variedades que conseguem se desenvolver melhor sozinhas”. O trabalho de preservação, melhoramento e amor com as sementes é para garantir a possibilidade de vida das próximas gerações, “tenho meus netos, filhos, família, né?”.

Neltume Spinoza | Município de Morretes, litoral

Adubação. Essa sempre foi a paixão da chilena Neltume Spinoza, que hoje semeia seu feijão de porco e mucuna nas agroflorestas em meio a Mata Atlântica, município de Morretes, no litoral do Paraná. Se identificar enquanto guardiã foi um longo processo que mescla a construção de seu banco de sementes ao importante reconhecimento do trabalho das mulheres no campo.

A chilena Neltune hoje desenvolve a prática de guardiã da biodiversidade no litoral do Paraná / Foto: Luiza Damigo

A resistência da semente e a importância do ato político das sementes enquanto patrimônio da humanidade, “como a herança de nossos ancestrais”, são algumas das reflexões compartilhadas pela agricultora e que foram fundamentais para seu próprio reconhecimento como guardiã. Nutrir a existência na terra, semear no solo as sementes que ele, rico e com vida, aguarda, é o papel das guardiãs e guardiões.

Parte de um todo, “somos parte fundamental da cadeia da nutrição e da existência, o primeiro passo foi feito pela natureza. O segundo somos nós quem damos, assegurando a continuidade da vida”. Responsabilidade que assume com leveza e felicidade, a missão é seguir adubando, observando e multiplicando a vida.

Cesar Luis Kerber | Assentamento Contestado, Lapa

Foi a “companheirada de luta” que apontou que Cesar é um guardião de sementes, embora muito antes ele já cultivasse e cuidasse para que variedades de sementes se mantivessem livres de insumos químicos, como agrotóxicos. Orientado pelo que chama de slogan do guardião – “sementes são patrimônio dos povos a serviço da humanidade” – ele defende que o compromisso central deste lugar que ocupa é com a sustentabilidade e o livre uso das sementes.

Cesar cultiva nove variedades de batata doce / Foto: Luiza Damigo

“O principal compromisso é manter as variedades em mãos da gente, puras, livres de contaminação, pra que com isso garanta a sustentabilidade das gerações futuras. As sementes são livres, elas não podem ser patenteadas”. Ainda que ele desenvolva melhoramentos genéticos e crie a variedade “Cesar” de milho, por exemplo, após sete anos de práticas e experimentações agrícolas, o guardião destaca: “a nova variedade não é minha, não posso patentear como grandes multinacionais fazem, cobram royalties”.

Compromisso em cuidar da terra, a quem pertence o ser humano e não o contrário, e em colorir a mesa da população. “Hoje você come batata inglesa que não é inglesa. Vendem três variedades e existem mais de 3 mil. Eu cultivo 9 variedades de batata doce e o mercado vende apenas a convencional. O que se pensa é que comer bem é encher a barriga de arroz, feijão e macarrão, mas comer bem é uma diversidade de alimentos”, conclui.


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