Ciranda Infantil é espaço pedagógico dentro da Jornada de Agroecologia

Por Geani Paula Souza/ Assesoar

A Jornada de Agroecologia é feita por vários sujeitos, homens, mulheres, jovens e crianças, e para a participação de todas e todos é muito importante um espaço que conforta os pequenos, para que a participação dos adultos aconteça.

Pensando nesses espaços para crianças e na participação dos pais delas nos espaços políticos é que a Ciranda Infantil se torna atividade importante dentro da Jornada. A iniciativa surgiu no Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) em 1987, durante o 1º Encontro Nacional de Educadores/as da Reforma Agrária (ENERA), com a função de possibilitar a participação dos pais e especialmente das mães nos espaços políticos do movimento. De lá pra cá a proposta pedagógica do MST amadureceu e focou na formação de crianças.

Jaqueline Baim, do setor de educação do MST, explica a importância dessa atividade. “A ciranda possibilita que as mães, em especial, possam participar das atividades e que tenham um espaço para deixar seus filhos. Esse espaço, além de ser um espaço de cuidado, também é um espaço pedagógico, educativo. A gente faz várias atividades lúdicas com as diversas linguagens entre as crianças e elas podem interagir entre elas e, ao mesmo tempo, dialogar com essa atividade que é a Jornada de Agroecologia”, diz.

A ciranda é pensada como um espaço que dialoga com as atividades que acontecem – não apenas um lugar para deixar os filhos, mas sim um lugar onde possam aprender de acordo com o encontro que acontece. Para ela acontecer, é realizado antes um processo de formação com os educadores infantis que trabalham com as crianças.

“O pessoal foi pensando o que dialoga com a Jornada de Agroecologia e que poderia ser trabalhado com as crianças. Então, à medida que as crianças vão fazendo as atividades lúdicas, a gente vai dialogando com o que tem na Jornada”, explica Baim.

Durante o evento são realizadas diversas atividades com as crianças, desde de desenhos, contação de histórias, produção de filtro dos sonhos e de bonecas abayomi.

Foto: Juliana Barbosa

O Sem Terrinha Ernesto Noronha, do acampamento Chico Mendes, de Matelândia, no Oeste do Paraná, conta que já participou de vários encontros e que gosta de participar da ciranda pois conhece muitos amigos. “Na ciranda tem muitos brinquedos, é divertido, e os educadores são muito legais”, diz o Sem Terrinha.

Uma das atividades marcantes para as crianças durante essa 19ª Jornada de Agroecologia foi a construção da bola da vida, um trabalho desenvolvido com terra e sementes que foi distribuído para os participantes da Jornada e que as crianças puderam levar para casa.

Foto: Juliana Barbosa

Brayan Rafael, criança moradora do pré-assentamento Dom Tomás Balduino, em  Quedas do Iguaçu, no Centro-Oeste do estado, pegou uma semente que levará para plantar com seus pais. “Eu brinquei com barro, plantei sementes, e vou plantar lá no lote”, conta.

Dilce Noronha, mãe do Sem Terrinha Ernesto, fica feliz em poder participar e ter um espaço que cuida e valoriza a participação do seu filho. “A ciranda é de grande importância para que a gente possa ter condições de participar das atividades. Temos a confiança de que nossos filhos estarão bem lá, em um espaço de descanso, de brincadeira e também de aprendizado”, enfatiza.

Agroecologia nas escolas do MST

O tema da agroecologia se dá em várias frentes dentro do MST e as jornadas de agroecologia têm um papel fundamental na construção e consolidação de espaços que trabalham com isso. Entre eles estão as Escolas do Campo.

A discussão da agroecologia nas escolas de acampamentos e assentamentos do Movimento Sem Terra é pensada desde o início da construção dos projetos dessas escolas. O planejamento dessas discussões se faz a partir da realidade dos locais: cada um deles tem o que se chama de ‘porções da realidade’, que são os complexos de estudo.

“A agroecologia entra como uma das porções para a gente discutir desde a questão da alimentação saudável, até a própria organização da horta da escola e debater sobre os agrotóxicos. Dessa forma, todo esse diálogo a gente faz com as crianças”, explica Jaqueline Baim.

Trabalho com guardiões mirins de sementes

Durante os dias da Jornada a Associação Brasileira de Amparo à Infância (ABAI), do município de Mandirituba, região sul do Paraná, participa com experiências ricas na área da agroecologia. A Abai realiza trabalhos com as crianças em situação de vulnerabilidade social.

Foto: Wellington Lenon

O Centro Socioambiental Mãe Terra, da ABAI, promove a integração socioambiental de crianças e adolescentes de 4 a 12 anos, a partir de ações socioeducativas que estimulem a convivência e fortalecimento de vínculos.

Guardiã de sementes que ajuda no trabalho com as crianças, Ines Polidoro explica esse vínculo com a natureza para o desenvolvimento das atividades. “A gente acolhe as crianças com a natureza. Elas – que vem com tantas dificuldades e negação de direitos – são acolhidas com o que a gente tem de mais precioso, que é a natureza”, conta.

O trabalho realizado com essas crianças não se dá em sala de aula, mas sim no contato direto com a natureza, e traz também a sabedoria dos povos originários e tradicionais.

Ines conta que é feita a relação entre as violências e as ameaças sofridas pelas crianças e pela natureza.  “Temos que compreender isso e cuidar da terra para ela cuidar da gente”, fala.

“A gente faz atividades de plantio com os guardiões mirins, que conhecem a variedade de sementes, a gente faz atividades da cultura indígena… Buscamos com os próprios indígenas essa vivência de fazer parte da natureza. Não existe meio ambiente, existe um ambiente total que nós fazemos parte, e os indígenas nos ajudam nessa busca”, enfatiza Polidoro.

A pequena Isabeli Pereira, que participa na ABAI, e esteve presente nesta edição da 19a Jornada de Agroecologia, conta como é a experiência desse trabalho com a natureza. “Mexer na terra é muito legal e eu me sinto livre”.

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