Nova Ferroeste poderá provocar catástrofes ambientais na Serra do Mar, alertam pesquisadores

Comunidades em Morretes (PR) poderão ser afetadas caso trecho da Nova Ferroeste passe pela Serra

Por Gabriel Carriconde, do Brasil de Fato Paraná

Foi com toda a pompa possível que o atual governador do Paraná, Ratinho Junior (PSD), anunciou, na última terça-feira (21), a consulta ao edital de leilão da chamada ”Nova Ferroeste”. A promessa é de ligar em cinco eixos ferroviários as cidades de Maracaju, no Mato Grosso do Sul, ao Porto de Paranaguá, com um ramal também a Santa Catarina, impactando diretamente 67 municípios.

Durante a cerimônia realizada no Palácio Iguaçu, o governador comemorou o avanço do projeto. “Esse é o último capítulo de uma novela de mais de 20 anos. Quando assumi o governo, em 2019, fui perguntar se existia projeto, estudo ambiental e de viabilidade. Não existia nada. Ou seja, a Ferroeste serviu apenas para cena política nos últimos anos. Nós confiamos nesse projeto, um projeto transformador, que vai atender o Brasil por inteiro. Agora o mundo terá a oportunidade de investir nessa grande corredor de exportação”, afirmou Ratinho Junior.

Contudo para moradores, pesquisadores e ambientalistas que acompanham o projeto governista, os impactos ambientais principalmente na Serra do Mar, poderão ser desastrosos, caso o projeto da Nova Ferroeste não leve em consideração trechos com risco de deslizamentos e ameaças de catástrofes ambientais.

Governo faz “propaganda mentirosa”

O painel “Impactos Socioambientais da Ferroeste (projeto do Agronegócio) sobre a comunidade de Morretes e região”, analisou na última quinta (23), durante a Jornada da Agroecologia, em Curitiba, os riscos ao meio ambiente que o projeto poderá trazer à Serra do Mar.

Para a bióloga Jaqueline Oliveira, produtora rural e participante da Rede Ecovida, o projeto pode colocar em risco comunidades que moram na Serra e toda a fauna e flora da região.

”O governo do Paraná tem feito uma propaganda mentirosa desta nova Ferroeste. Os impactos ambientais para a Serra do Mar poderão ser enormes. E, além de ser cara, economicamente poderia ser mais viável se o trecho, por exemplo, fosse desviado da serra”, analisa.

Durante o painel, foi apresentado um estudo que demonstrou os problemas que a obra poderá acarretar para a região. De acordo com os dados demonstrados durante o evento, é previsto a construção de trilhos para o chamado trecho 5, que afetaria as comunidades do Sambaqui, Rio Sagrado, Mundo Novo e Floresta, no município de Morretes.

A Ferroeste prevê a construção de um traçado de 100 a 500 metros acima das comunidades, com a previsão do transporte em sua maioria de óleo pesado e soja. Ainda de acordo com o estudo apresentado no painel, a localização onde passará os trens tem alto risco de erosividade e deslizamentos, podendo colocar toda fauna, flora e moradores em risco.

Na contramão da história

Para o historiador e professor Renato Mocellin, a obra poderá ter um alto custo humano e ambiental. “A destruição da Serra do Mar não compensa economicamente. Vale a pena? Estamos na contramão da história, no mundo se preocupa cada vez mais com o meio ambiente. Isso vai beneficiar a quem? Destruir o meio ambiente compensa?”, indaga.

Além do risco de acidentes no trecho, as obras da nova Ferroeste preveem a canalização de rios e cachoeiras em santuários florestais na região da comunidade do Rio Sagrado, colocando o que técnicos chamam de “obras de arte”, que seria o manilhamento do rio, para que os trens possam passar.

Em um manifesto que circula nas redes sociais, a comunidade da região argumenta que a “trajetória da ferrovia Nova Ferroeste desenha a sua passagem em Morrentes sobre a bacia do Rio Sagrado, a qual abastece as bacias de Antonina de Paranaguá. Suas nascentes são a principal fonte de abastecimento dos moradores das comunidades do Candonga, Rio Sagrado, Mundo Novo e Saquarema.”

A petição cita que a área é “de intervenção, também pertencente à APA de Guaratuba, e é bem tombada pelo Patrimônio Natural do Paraná, além de fazer divisa com os Parques Nacionais do Guaricana que pertence à Área de Proteção Ambiental Estadual de Guaratuba e de Saint-Hilaire Lange, conhecida como Serra da Prata.”

Jaqueline de Oliveira cita que a comunidade já levou ao governo do Paraná alternativas para que o traçado pudesse ser alterado para Santa Catarina até o Porto de Paranaguá, ou o uso de equipamento para os trilhos que não agredisse tanto a vegetação. Contudo, de acordo com a bióloga, as sugestões foram descartadas. “Se o traçado fosse desviado para Santa Catarina evitando chegar a Serra do Mar, seriam mais 20 km de viagem, mas, os impactos ambientais seriam bem menores.”

Edição: Lia Bianchini

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