20ª Jornada expõe mais de 900 variedades de produtos agroecológicos de 120 grupos do Paraná 

Centenas de itens da economia solidária também fizeram parte da feira do evento, realizado de 22 a 26 de novembro, em Curitiba.

Foto: Guilherme Araki

A 20ª Jornada de Agroecologia terminou neste domingo (26), após cinco dias de promoção da produção agroecológica e do debate acerca de saídas para a crise ambiental, no Campus Rebouças da UFPR, em Curitiba. 

Quem andou pela Feira da Agrobiodiversidade Camponesa e Popular pode ver de perto e levar para casa uma grande diversidade de alimentos saudáveis e itens da economia solidária. A variedade expressa a riqueza da produção agroecológica em todo o Paraná: foram mais de 900 itens in natura e processados, 560 variedades de sementes crioulas. Mais de 5 mil kits de sementes agroecológicas Bionatur foram doadas para as pessoas participantes. 

Foto: André Gouveia

Grãos, tubérculos, hortifruti, erva-mate, café, cerveja artesanal, queijos, iogurte, picolés e sorvetes à base de frutas da Mata Atlântica, fubá e uma lista extensa de produtos coloriam as tendas montadas no pátio da universidade. 

A produção é fruto do trabalho de cerca de 120 coletivos, empreendimentos de economia solidária, indígena, cooperativa da reforma agrária e da agricultura familiar, vindos de todas as regiões do estado. Os cinco dias de trabalho envolveram mais de 300 expositores e feirantes. Os sabores da agroecologia também estavam presentes no espaço Culinária da Terra, que serviu mais de 30 variedades de pratos e quitutes. 


Foto: Juliana Barbosa

“A construção da Jornada de Agroecologia tem demonstrado um potencial muito grande de produção de alimentos, com uma diversidade de produtos que aumenta cada ano, produzidos por camponeses e comunidades tradicionais. Esse debate faz em torno de 30 anos que a gente vem construindo e estamos com todas as certezas de que é o caminho certo”, garante o produtor agroecológico Armelindo da Maia, integrante da direção estadual do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e da coordenação da Jornada. 

A reflexão e as trocas de experiências movimentam centenas de pessoas em mais de 30 conferências, rodas de conversas, seminários e oficinas. Para essas atividades, o evento ocorreu em parceria com a Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) e o Instituto Federal do Paraná (IFPR), que cederam salas para a realização das formações, além da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Foto: Dayse Porto

Leci Brandão, Bia Ferreira, Chico César foram os três artistas nacionais que lotaram a plateia do palco principal da Jornada. Em comum, os três cantores e compositores trazem o apoio à agroecologia, à reforma agrária e às causas sociais e populares. Além deles, a programação cultural contou com mais 20 atrações, entre música e teatro.

A Jornada de Agroecologia é realizada desde 2002, de forma conjunta por cerca de 60 organizações, movimentos sociais e populares, coletivos e instituições de ensino. O objetivo central é fomentar a agroecologia e mostrar ao grande público urbano os frutos e a viabilidade deste modo de produção de alimentos, baseado no equilíbrio ambiental e na qualidade de vida para quem produz e quem consome. 

Neste ano, a edição contou com A atividade tem patrocínio Itaipu Binacional, Conselho Nacional Sesi, Fundação Banco do Brasil e Governo Federal, com apoio da Agroecology Fund, Secretaria de Agroecologia e Abastecimento, Incra, Conab, Ministério Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar e Governo Federal.

Por apoio à transição da matriz produtiva 

A advogada Tchenna Maso, coordenadora do programa Iguaçu da Terra de Direitos e integrante da coordenação da Jornada de Agroecologia, frisou a importância da realização da edição no final do primeiro ano de governo Lula, para o balanço das políticas públicas, como foi feito nos vários seminários e oficinas que foram realizados ao longo do evento. 

“Avançamos muito, em termos de agroecologia, em ter uma Secretaria Nacional de Agroecologia, mas ainda falta o governo avançar com orçamento, crédito rural, com a inclusão das mulheres na agroecologia, e esses foram alguns dos temas que a gente debate aqui”, afirmou.  

Outro tema presente ao longo da Jornada é o chamado Pacote do Veneno, projeto de lei que teve regime de urgência aprovado pelo Senado nesta semana. “O Pacote do Veneno é um risco para a produção de alimentos saudáveis e vai na contramão do que o movimento agroecológico propõe”, disse a advogada.

A reivindicação da estruturação de um fundo para transição da matriz produtiva agroecológica foi apresentada a representantes do governo federal e parlamentares no terceiro dia da Jornada, nesta sexta-feira (24). 

Campo e cidade por terra, teto, trabalho e agroecologia

O produtor agroecológico Armelindo da Maia, integrante da direção estadual do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e da coordenação da Jornada, avalia que o evento tem se consolidado num movimento de organizações populares do campo e da cidade. “É um espaço que faz esse diálogo com a sociedade e com o governo, sobre a necessidade de a gente mudar o modelo de produção da agricultura brasileira”.


Foto: Leonardo Costa

No segundo dia de Jornada, uma audiência reuniu comunidades urbanas e rurais que lutam por moradia e terra, para dialogar com autoridades públicas.  A audiência contou com a participação de movimentos sociais do campo, da cidade e movimentos indígenas, além de parlamentares e representantes do governo federal. 

Durante a reunião, dezenas de comunidades que enfrentam ameaça de despejo entregaram uma pauta de reivindicações às autoridades presentes. O governo federal se comprometeu a criar a ouvidoria urbana para mediação de conflitos urbanos, uma das demandas centrais da articulação Despejo Zero. O compromisso foi firmado por Kelli Mafort, secretária de Diálogos Sociais e Políticas Públicas do governo.  

A ação foi organizada pela campanha Despejo Zero, que reúne movimentos sociais urbanos, do campo e povos indígenas em defesa do direito de ter uma casa para morar e terra para produzir alimentos.

Foto: Vândala

“E nós estamos muito contentes do ponto de vista dos resultados. Nós fizemos aqui uma importante aliança com o povo urbano que luta por moradia, no que estamos chamando de Despejo Zero, exigindo das autoridades a resolução dos problemas da regularização das ocupações urbanas e rurais”, disse.

Carta da 20ª edição

A carta da 20ª edição da Jornada de Agroecologia, lida neste sábado (26), apresenta a síntese comum das dezenas de organizações que compõem este movimento em prol da agroecologia. 

As organizações denunciam os crimes ambientais cometidos pelo capital, com a conivência de governos: “É preciso recordar a origem da crise climática e a responsabilidade dos países do norte no aquecimento global para entender quem sai favorecido nas soluções globais do mercado de carbono”. 

Diante dos anúncios de ameaça global pela crise climática, a Jornada afirma que “a agroecologia precisa entrar como meta prioritária de ação, sendo reconhecido seu papel para assegurar o direito à alimentação adequada”, com políticas públicas e fomento para a transição da matriz de produção para a agroecologia.  

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