Agroecologia: Cultura é parte do projeto político e ambiental que pretende transformar a sociedade

Com mais de 20 atrações artísticas, programação da 20ª Jornada destacou importância da cultura e reuniu artistas de todo o Brasil em torno da agroecologia

Bateria da Unidos da Lona Preta. Fotos Juliana Barbosa

Por Isabela Cunha

Em sentido geral, a Agroecologia é compreendida como um conjunto de práticas que visam transformar os sistemas de produção e de consumo. Mais do que o abandono dos agrotóxicos, trata-se de um saber científico e um projeto político que propõe que as relações humanas e os modos de vida sejam transformados ao mesmo tempo em que se transforma a produção agrícola. O projeto agroecológico se apresenta, desta maneira, como caminho para reconstruir o mundo de maneira sustentável, tanto para a natureza, quanto para os seres humanos.

Ao longo da 20ª Jornada de Agroecologia, realizada entre os dias 22 e 26 de novembro, na UFPR – Rebouças, em Curitiba, o público pode participar de mais de 60 atividades em torno do tema. Foram oficinas, palestras, conferências e seminários que debateram o projeto sob diversos pontos de vista. Além das atividades formativas, mais de 20 atrações artísticas, subiram ao palco para marcar também a dimensão cultural do projeto agroecológico.

Bloco pré-carnavalesco de Curitiba Garibaldis e Sacis. Fotos: Juliana Barbosa

Bloco Afro Pretinhosidade. Foto: Vândala

“Para pensar a relação entre cultura e agroecologia é melhor começar pela origem da palavra. Cultura vem do verbo cultivar. Na sua origem, a palavra tinha a ver com o trabalho humano sobre a natureza, com aquilo que o ser humano fazia para plantar, para colher, produzir a sua existência e dar conta das suas necessidades”, explica Ana Chã, do coletivo de Cultura do MST.

“Com o tempo, a palavra foi ganhando outros significados, como cultivo da alma, cultivo dos sentidos, um cultivo que vinha muito das práticas artísticas, da música, da literatura, de poder pintar um quadro, poder se expressas através da poesia, mas mantendo sempre num vínculo com a natureza e com a interação entre os seres humanos”, complementa.

Ana Chã e o grupo As Cantadeiras. Fotos: Wellington Lenon

Ana Chã subiu ao palco da Jornada de Agroecologia com o grupo As Cantadeiras, um grupo formado por quatro mulheres militantes do MST que atuam no campo da educação e da cultura e conservam entre si uma longa relação de amizade. “Há uns 14 anos, coincidiu de estarmos todas na cidade de São Paulo. A gente tinha ânsia de usar a arte e a cultura como um instrumento de encontro, de amizade, mas também de luta”, conta Chã. 

“A gente começou a se encontrar de forma casual, cantando juntas, inclusive com outras companheiras. Com o tempo, firmamos esse grupo das quatro e firmamos também o nosso repertório, com músicas do cancioneiro latino-americano, das lutas internacionalistas, e também das canções que catam o campo, que cantam a terra e as lutas feministas, um elemento muito forte no nosso trabalho”, comenta.

Performance “Palestina Livre”, de Arauto Dalma. Fotos: Juliana Barbosa

Brincar orgânico

Nos terrenos da cultura popular, quem também construiu a programação cultural da 20ª Jornada de Agroecologia foi a Cia Mirabólica, uma companhia de teatro Curitibana  que é parceira da Jornada e do MST há muito tempo. Segundo contam Luz Medeiros e Ronaldo Pituim, atores da Cia, uma das preocupações centrais do trabalho é pensar a cultura incluindo as crianças.

“A gente tem refletido muito enquanto companhia sobre o brincar e sobre a primeira infância. E aí, quando a gente vem para a jornada, um lugar onde a gente tá discutindo as diversas culturas, o combate ao veneno, a gente começa a refletir também sobre essa hipótese de um brincar orgânico. Do mesmo jeito que a gente quer que a nossa alimentação seja saudável e tenha vida, a gente tem que cuidar do brincar, porque o brincar é o alimento da criança”, defende Pituim. “Se a gente não come plástico, não come lixo, por que as crianças precisam brincar com isso?” provoca.

“O espetáculo que a gente trouxe para a Jornada foi o ‘Contadeira: histórias e brincadeira’, um espetáculo criado a partir da pesquisa sobre os brincantes e brincadeiras da cultura popular do Brasil”, relata Luz Medeiros. Segundo ela, o espetáculo é fruto da pesquisa de Pituim, que investiga cantigas e histórias populares de várias regiões do Brasil para apresentar às crianças das diversas regiões do país. “O que temos buscado, por meio dos espetáculos, é trazer essas histórias da cultura popular de todo o Brasil, propondo um brincar que seja acolhido pelos olhos das crianças e que também gere reflexão para os adultos”, concluem.

Luz e Pituim, da Cia Mirabólica. Fotos: Lia Bianchini

O samba faz a luta, a luta faz o samba

Presente em vários momentos da Jornada, a Unidos da Lona Preta atravessou a programação.  Formada nos territórios de reforma agrária, a batucada do MST nasceu em São Paulo, retomou suas práticas no Paraná, e hoje tem integrantes de todas as regiões do estado. Gisele David, jovem do assentamento Celso Furtado, conta que para ela a relação da Lona Preta com a agroecologia se dá de diversas maneiras.

“Nós acabamos de cantar uma música que relembra o companheiro Keno, cantamos o Paulo Freire no Carnaval passado, a Unidos tem esse papel de utilizar o samba para falar das lutas e da agroecologia, de forma didática e prazerosa”, avalia. Para ela, que toca caixa, a batucada proporciona uma nova relação entre a juventude camponesa e o samba “Até eu conhecer a Unidos da Lona preta, eu não conhecia o samba, eu não tinha esse contato. A partir do momento que a unidos consegue estar presente no nosso território, proporcionando o contato com o samba, a gente compreende a música como instrumento de luta, a linguagem da arte vai se tornando parte do nosso viver cotidiano”, conclui.  


Bateria da Unidos da Lona Preta. Fotos Juliana Barbosa

Para Ana Chã, não há mesmo uma linguagem específica para a cultura da agroecologia. “Se a gente for pensar o que seria hoje uma cultura da agroecologia, eu acredito que seria essa cultura da diversidade, de ouvir um rock como esse que está tocando agora [no palco da Jornada], e depois ouvir uma viola caipira, um grupo de fandango, um grupo de matriz africana. Mais do que a gente dizer que essa é a arte ou essa é a manifestação que representa a agroecologia, eu acredito que essa diversidade que aguça os nossos sentidos é o que devemos considerar”, defende.

Quarteto Poty. Foto: Murilo Pilatti

“Se em alguma medida o agronegócio achou na indústria cultural uma parceira para passar a sua mensagem, a gente tem na agroecologia também esse potencial, de trazer as formas populares, a diversidade da cultura popular, e esse potencial humano de transformação, que precisa ser trabalhado e precisa ser cultivado no sentido da liberdade”, conclui.

Entre os palcos do Festival do MST, do Café Ana Primavesi e da Ciranda Gralha Azul, a 20ª Jornada de agroecologia recebeu shows, apresentações teatrais, filmes, documentários, exposições fotográficas e lançamento de livros. Confira a lista completa das atrações.

Buda Bong

Bloco Pré-Carnavalesco Garibaldis e Sacis

Unidos da Lona Preta

Leci Brandão

Quarteto Poty

As Cantadeiras

Grupo de Teatro do Oprimido da FAP

Cia Mirabólica

Lançamento livro “O Povo de Lula” – Leandro Taques

Érico

Bia Ferreira

Sr. Barão

Lançamento do documentário “A Flor da Pele EP. Marmitas da Terra”

Roda de Samba com Bloco Boca Negra

Petrus Cuesta

Matula Root

Roda de Capoeira da Associação de Capoeira Angola Dobrada

Bloco Afro Pretinhosidade

Fandango Mandicuera

Grupo Dona Mariquinha

Chico César

Filme “De Quanta Terra Precisa o Homem?” Eduardo Moreira

Lançamento do documentário “Antes do Prato” Greenpeace

Grupo de cantores do MST Paraná. Foto: Juliana Barbosa 

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