Crise ambiental nas cidades e no campo: Jornada da Agroecologia articula resistência 

Por Coletivo de comunicação da jornada de Agroecologia

Enchentes, deslizamentos, ondas de calor extremo e piora na qualidade da água impactam diretamente a vida urbana, é a realidade da crise climática. Na grande Curitiba, moradores enfrentam falta d’água enquanto o campo sofre com longos períodos de seca ou excesso de chuva. Neste cenário, a agroecologia, praticada por movimentos populares como o MST e o Campesinato, se apresenta como alternativa viável e urgente frente à financeirização das políticas ambientais.

2ª Etapa do Curso de capacitação agroecológica para camponeses no CEAGRO Vila Velha em Rio Bonito do Iguaçu. Fonte: Gislaine Ribeiro

Durante a 22ª Jornada de Agroecologia, que acontece na capital paranaense, serão realizadas conferências e debates sobre meio ambiente, justiça climática, impactos do agronegócio, segurança alimentar e a construção de um projeto popular para o Brasil. Estão confirmadas  participações como a do geógrafo Andrei Cornetta, que discutirá a estratégia de destruição capitalista promovida pelo agronegócio, da liderança indígena Auricélia Arapiuns, além do do teólogo Leonardo Boff e de João Pedro Stédile. A programação também inclui seminários temáticos e oficinas práticas com foco em agroecologia, saúde coletiva, produção sustentável, cultura popular e comunicação. Serão espaços de troca de experiências, formação política e aprofundamento técnico, articulando conhecimento científico e saberes dos territórios.

O debate sobre meio ambiente e justiça climática ganha força a partir da fala do professor Andrei Cornetta, convidado do evento. Para o pesquisador, a crise ambiental é expressão direta do esgotamento do modelo capitalista, que transforma a natureza em mercadoria e reproduz desigualdades sociais e territoriais. “Se continuarmos tratando os desastres ambientais como eventos isolados e naturais, ignorando seus vínculos com um modelo político e econômico desigual, apenas aprofundaremos as vulnerabilidades existentes”, alerta.

Segundo ele, a “economia verde”, a “transição energética” e os mercados de carbono têm sido apresentados como soluções à crise, mas muitas vezes operam dentro da mesma lógica que a produz. A substituição de combustíveis fósseis, por exemplo, é usada para justificar a expansão energética que atende à demanda de setores como a inteligência artificial, e não para repensar o modelo de desenvolvimento. “O mercado de carbono virou uma licença para poluir. A lógica da compensação, e não da prevenção ou transformação, mantém o sistema intacto. O que precisamos é de outra organização econômica e social que enfrente o problema na raiz”.

Agroecologia: caminhos populares para a justiça climática

Frente a esse cenário, o professor destaca o papel da agroecologia, sobretudo a partir da experiência do MST, como forma concreta de enfrentamento à crise climática e ambiental. Práticas como agroflorestas e sistemas agroecológicos aumentam a retenção de carbono, restauram nascentes, conservam a biodiversidade e produzem alimentos saudáveis, tudo isso em diálogo com saberes tradicionais e justiça social.

Cornetta cita ainda iniciativas urbanas que fogem à lógica mercantil, como as chamadas cidades-esponja e jardins de chuva, que ajudam a reter e purificar a água, além de mitigar os efeitos das ilhas de calor. Para ele, políticas públicas de abastecimento urbano, segurança alimentar e preservação ambiental devem se articular com territórios historicamente responsáveis pela conservação das florestas, como terras indígenas, quilombolas, reservas extrativistas e assentamentos da reforma agrária. “As maiores áreas preservadas no Brasil estão nesses territórios. Eles aliam conhecimento tradicional e tecnologias socioambientais. Se o Brasil quiser ser referência na COP30, precisa ampliar a demarcação de terras e garantir a reforma agrária popular”, defende.

Ameaças e retrocessos: o PL da Devastação

Enquanto essas soluções populares avançam, o Congresso Nacional ameaça desmontar o principal instrumento de proteção ambiental no país. O Projeto de Lei 2.159/2021, apelidado de “PL da Devastação”, pretende flexibilizar regras do licenciamento ambiental, abrindo caminho para a expansão de obras com alto impacto, como rodovias, barragens e monoculturas. Esse contexto expõe quadros crescentes de injustiça, associados ao racismo ambiental, em que grupos marginalizados, como comunidades negras, camponesas, indígenas e periféricas, são desproporcionalmente afetados pela degradação do ambiente.

“O que está em jogo é o direito à vida nas cidades, no campo e na floresta. A aprovação desse PL é um retrocesso brutal. É preciso que a sociedade urbana também se envolva nesse debate, porque é ela quem sente os efeitos diretos da contaminação da água, da alta nos preços dos alimentos e das catástrofes ambientais”, diz o professor.

Dados

  • 41 milhões de pessoas passaram fome na América Latina e Caribe devido a eventos climáticos extremos, em 2023 (Relatório Panorama Regional de Segurança Alimentar e Nutrição 2024, da Organização das Nações Unidas).
  • 1,17 milhão de meninas e meninos brasileiros tiveram os estudos interrompidos em 2024 por eventos climáticos, em especial enchentes e secas (Relatório do UNICEF, divulgado em janeiro de 2025).
  • Desastres climáticos no Brasil aumentaram 250% nos últimos quatro anos (2020–2023), em comparação com os registros da década de 1990 (estudo da Aliança Brasileira pela Cultura Oceânica)
  • 74% das emissões de gases do efeito estufa no Brasil estão relacionadas ao agropecuário. O desmatamento está entre os principais problemas (Dados do Seeg – Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa do Observatório do Clima). 

Sobre a Jornada

A 22ª Jornada de Agroecologia reúne camponeses, estudantes, pesquisadores, militantes e organizações da sociedade civil em Curitiba para debater alternativas ao modelo agroindustrial e propor caminhos para a construção de uma sociedade justa, sustentável e popular. O evento reafirma o papel da agroecologia como ferramenta de resistência e transformação diante da crise ambiental e social.

Serviço:
22ª Jornada de Agroecologia
Data: 6 a 10 de agosto de 2025
Local: Universidade Federal do Paraná – Campus Politécnico – Av. Cel. Francisco H. dos Santos, 100 – Jardim das Américas, CuritibaEntrada gratuita
Mais informações: https://jornadadeagroecologia.org.br/ comunicacao@jornadaagroecologia.org.br
Instagram: @jornadaagroecologia

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