Mesacast da Jornada de Agroecologia entrevista Ines Fátima Polidório e o Roberto Baggio e destaca história do evento.

O segundo episódio do programa Jornada em Rede rendeu uma prosa boa: o dirigente nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, Roberto Baggio, e a agricultora e guardiã de sementes Ines Fatima Polidoro, conversam sobre a história, as vivências e a prática da agroecologia no Paraná e sobre a construção da Jornada de Agroecologia. A entrevista foi conduzida por Maria Fernanda Costa e Evelin Vitoria Silva.
Vem entender melhor o que é a agroecologia e conhecer melhor um pouco das lutas populares pela defesa da agroecologia no Paraná.
Jornada em Rede é o programa de entrevistas em formato mesacast da 22ª Jornada de Agroecologia. O evento está sendo realizado entre os dias 6 e 10 de agosto, em Curitiba, no Campus Politécnico da Universidade Federal do Paraná.
Confira abaixo trechos desse bate-papo:
Maria Fernanda: Como você se aproximou da Jornada, qual o significado das sementes?
Ines: Eu trago as sementes para me ajudar, elas me dão essa força de falar a partir do lugar que hoje eu me encontro, que tenho a alegria de dizer que sou agricultura é guardando a semente. E como eu me aproximei da jornada, na verdade, há 20 anos atrás, eu estava em Campos dos Goytacazes. Quando começou a jornada de agroecologia, eu estava contribuindo, como pastoral da terra, no assentamento de zumbi dos palmares e de lá veio o primeiro grupo participar da primeira jornada de agroecologia aqui no Paraná.
Roberto: Então, a partir daí, eu me incorporo nessa militância. Estudava e estava no seminário, daí saí e me incorporei nessa luta pela reforma agrária. Nos anos 90, naquela crise estrutural do modelo neoliberalismo, então, ele impacta muito a agricultura. […] Nos anos 90 até 2000, essa tem sido uma batalha central. E nessa batalha, então, se organiza um bloco de forças do campo popular, dos sindicatos, pastorais, igrejas, paróquias, movimentos, partidos políticos, entidades, ONGs, agrônomos, técnicos e órgãos de instituição. […] A pesquisa motiva e faz refletir sobre a necessidade do teu modelo alternativo ou do veneno do agro do negócio. Então, nesse contexto é que nasce a jornada da agroecologia […].
A primeira jornada da agroecologia, nasce aqui na região de Ponta Grossa e foi um embrião inicial.[…]Ela foi um movimento que foi se espalhando no estado todo, onde não tinha agricultores, faxinalenses, quilombolas, indígenas, que, de certa forma, praticava a agroecologia. […]Esse foi um pouco, digamos, o processo que dá origem à jornada.
Desde então, já se passaram 22 anos, na verdade, seria um 24, que foram dois anos de Covid, que daí não foi possível fazer. E ela chegou em Curitiba desde 2018 e tem, a cada ano, crescido, ampliado, envolvido mais gente e vai se constituindo como uma referência da agroecologia, como modo de vida e também produzir riqueza em sementes, alimentos no campo e para a cidade também.
Maria Fernanda e Evelin: Você sempre esteve envolvida com agricultura e agroecologia?
Ines: Eu sou filha de agricultor e com 14 anos eu saí de casa para poder continuar entendendo essa realidade sofrida dos pequenos agricultores e lutar por ela. Então, de 14 anos até os meus 58, que agora já vou para os meus 60, eu fiquei lutando pela terra junto com os camponeses, em vários lugares nesse país. E entendendo como que a gente poderia fortalecer a vida no campo a partir das organizações. E hoje, afirmo com certeza que é lutando pelos territórios, mais pela agroecologia, pela terra e as sementes, que são os primeiros elementos para a gente pensar agroecologia.
Maria Fernanda: O que é a agroecologia, como uma prática ancestral?
Ines: Para minha agroecologia está na vivência no campo, no espaço, no jeito de viver… Ela é muito mais do que técnicas agroecológicas, mas é esse jeito de viver, de pertencer à natureza e cuidar dela, ter essa convivência com harmonia, com respeito. Acho que isso nos ensina os povos originários e tradicionais.
Roberto: […]A agroecologia é a vida, diversas formas de vida. Então por isso que hoje nós estamos nesse grande dilema. No modelo dos químicos, do agronegócio, do veneno e das empresas transnacionais e tudo mais, a natureza é um negócio e um mercado. Ela só enxerga a semente e a terra como um negócio e vai querer se apropriar para vender para fazer dinheiro. […] E na nossa referência, na agroecologia, você tem diversas formas de vida que convivem harmoniosamente e complementarmente no mesmo território[…].
O agricultor tem humildade, o feijão, a banana, a cenoura, a cebola, o leite, a carne, o ovo, tudo o que ele precisa, fruta e, a partir disso, se alimenta disso, sem o veneno. Então, a agroecologia é também uma matriz científica, técnica e produtiva. Então a agroecologia seria uma ciência de uma sociedade mais igualitária, mais humana, mais equilibrada, que preserva o meio ambiente, as reações humanas, a água, o rio, tudo que existe[…].
Ines: A agroecologia é para todos. Então, acho que essa é a diferença também de dizer que a agroecologia, e quando você fala da ciência, ela é uma ciência comprovada. Mas ela é comprovada a partir de uma prática dos povos originários e tradicionais que muitas vezes os pesquisadores foram para esses territórios, escutaram dos povos, trouxeram, comprovaram essa técnica, mas nunca se lembraram dele[…].
Evelin: Qual é a diferença entre a produção agroecológica e a produção orgânica?
Roberto: Então, a produção orgânica é uma produção que vai levando em consideração o ambiente que você vive. Nós temos que ir migrando e sair de uma agricultura química, cheia de veneno, de contaminantes para uma agricultura que transita para a agroecologia e ela vira orgânica. Então, é uma grande travessia. Então, como que aos poucos tu vai migrando e saindo do veneno dos químicos para tu ir tendo uma outra forma de agricultura que seria uma agricultura de transição agroecológica e seria uma agricultura orgânica?. Em que perspectiva? Na perspectiva que ela seja diversa.
[…] Para que a diversidade seja a essência de uma agricultura que produz a comida. O contrário disso vai ser uma agricultura química, veneno, científica, que é aquela do laboratório que só tem uma forma de vida hegemônica daquela territória aí. Então, a nossa luta é migrando, saindo da agricultura química, para ir para uma agricultura agroecológica e ver uma agricultura orgânica, ou seja, uma agricultura sadia, sem veneno.
Ines: É, mas assim, eu sou agricultura hoje certificada e eu estou numa luta para que o meu certificado não seja orgânico escrito, que seja agroecológico. Porque eu entendo que é claro que hoje, com tantas doenças, com tantos problemas que a própria alimentação vem trazendo, muita gente hoje quer comer orgânico.
Agora, na produção orgânica, muitas vezes, o grande produtor que quer ganhar, ele não está preocupado nas relações de trabalho, de gênero, na diversidade. Então, ele quer plantar a monocultura sem veneno, porque o valor é maior, agregado. […]
A gente vai vendo que muitas vezes o mercado, vai se apropriando das nossas lutas, muda um pouquinho e vende porque quer que seja a mercadoria. Então, quando eu digo agroecologia, eu digo essa vida integral, que não dá para eu desprezar formiga e minhoca, não dá para eu colocar algo para que essa semente fique bonita, que esteriliza a terra, ou que não veja a relação do trabalho, a vizinhança, amizades, trocas, que eu não guardo a receita que eu possa compartilhar nos grupos de agroecologia. Então, acho que assim, para mim, a agroecologia não tem como o mercado nos tomar, porque ela é essa vida integral.
Evelin: Como é ser guardiã de sementes?
Ines: Eu tive meus pais que lutaram, que viveram lá nos quatro aqueles de terra, nos criaram. E quando meu pai partiu, então eu falei, o que me pertence, eu quero se transformar em terra e eu quero fazer a experiência da agroecologia que eu sempre falei[…].
[…]Hoje eu vivo a agroecologia. E aí, para viver a agroecologia, a semente era o caminho. E, ser guardiã, me identificar, eu sou uma que cuido de uma semente para partilhar, para que a vida continue. E para a história dela.[…] Eu primeiro comecei por esse milho, que é o Avati e fui trocando, fui indo aos territórios, a semente nos levou a esses territórios e lá descobrimos os que carregam essa história, que são os indígenas, que são os quilombolas, que são os faxinalenses. […]E aí fui trazendo semente, fui multiplicando, e partilhando e hoje eu posso dizer, que tem na minha casa 20 variedades de feijão, umas oito de milho, batatas. E vou encantando cada dia mais com isso, porque a semente nos encanta[…].
[…] Assumir ser guardião, é assumir a luta pelo território daqueles que carregam. Então é você ter a coragem de ir para os territórios, de escutar esses povos e de fazer com que a luta dele seja tua também. […] isso é ser guardião.
Maria Fernanda: Você sempre participou das jornadas?
Ines: […] Desde que cheguei aqui, tive possibilidade […], também me integrei no grupo de animar, principalmente nessa área das sementes e com os povos, estamos aqui. Desde que cheguei em Mandirituba, é que eu faço parte da construção também da jornada de agroecologia e do fortalecimento que as que tenham mais desse ano, a gente vai ter 34 feiras de festa de sementes no Estado Paraná, nos territórios.
[…] Porque é ir para lá e a gente vê que não é só, que tem muita coisa boa resistência lá, mas tem muita luta e a gente precisa se somar com elas. Então a jornada eu acho que é esse espaço de encontro, a gente se emociona, quando a gente entra aqui as barracas, hoje só chegando ali, muitas vezes chorei, porque encontra as pessoas que trazem a sua história, trazem sua semente, seu alimento. Então acho que a jornada é esse espaço de grande encontro para fortalecer a luta nos territórios[…].
Evelin: Como vocês percebem essa evolução das jornadas, como vocês percebem que isso tem evoluído e tem crescido dentro do nosso Estado?
Roberto: É uma alegria ver essa semente que há 22 anos atrás foi semeada, ela germinou, ela se espalhou no Paraná inteiro, já fez-se colheita e se replantou. Então a jornada é um pouco isso. Ela foi um processo, está sendo um processo muito bonito, muito especial e está florescendo e está se espalhando e está produzindo muitos frutos.
É só olhar a jornada deste ano, tu tem ali uma centena de barraquinhas de tendas que vão comercializar, trocar, repartir, dividir iniciativas da economia solidária, que é uma economia popular. Nós temos, acho que, mais de 90 grupos que expõem[…].
Nós devemos ter mais de 100 experiências comunitárias, associativas da agricultura, na forma dos diversos tipos de produtos que estão fazendo aí você tem a culinária da terra com uma variedade de pratos típicos. Você vai ter uma grande celebração de partilhas das sementes no domínio.
Você tem um conjunto de atividades culturais que vão envolver mais de 40 apresentações e mais de 200 militantes artistas. E assim, se imaginassem bom, ela foi aquela semente, germinou porque ela germinou, porque ela era agroecológica.É a semente da vida, não é isso? ela se espalhou e está aí.
[…] Então, tem que toda essa ciência se envolver e se abraçar com os colonos, com os agricultores, com os poucos indígenas, por mais gente vai ter, digamos, ciência e trabalho camponês, que também é ciência, no sentido de nós organizar uma agricultura que respeita a vida, que cuida a natureza, que não precisa matar a natureza, que ela não é concorrente à natureza, que não vai contaminar o rio, que não vai por fogo na floresta e vai produzir comida boa na mesa de todos os 220 milhões de brasileiros. Então, só a agroecologia pode falar isso e eu acho que essa semente da jornada é essa esperança, foi um acerto e ele está no que?. Olhando assim, do conjunto de ideias que a jornada carrega.
Vamos repartir a terra, vamos cuidar dos rios, vamos cuidar da sementa. Então, ela tem um conjunto de ideias bonitas e fortes. Vamos possibilitar que todos os camponeses, povos que vivem na agricultura tenham acesso à educação e à cultura, que isso é um valor importante.
Vamos possibilitar que os seus filhos que vivem na agricultura possam acessar a universidade e fazer ciência. E possibilitar toda essa riqueza vir para a cidade, como está se falando aqui. Então, isso é um projeto, um projeto de vida que tem materialidade. Então, acho que isso é uma certeza e por isso é que nós vamos ter futuro, porque temos as condições e eles só têm dinheiro. E se a gente parar de trabalhar para eles e começar a trabalhar para o nosso projeto, eles vão ser derrotados.
Ines: É só quando falou de quem pratica agroecologia e aí são os camponeses, mas eu acho que quando a gente assume também a luta pela terra, pela reforma agrária, e a beleza de ser a opção de vida de quem muitas vezes estava numa periferia da cidade, que é filho de camponês, retorna para o campo e faz essa opção de ser agroecológico, de não seguir o modelo imposto, é uma coisa linda. E hoje tem gente que mora na cidade e se reconhece o ser agroecológico, que apoia as lutas do campo, que se alimenta com os alimentos da agricultura familiar.
Então, é ser um ser agroecológico. Tenho escutado muito isso quando a gente traz a campanha de adotar uma semente pela vida para a cidade. Então, a gente acaba dizendo que a luta é do campo, sempre dissemos que a luta é do campo e da cidade, mas o ser agroecológico ele pode estar também no mundo urbano hoje e assumir essa missão de defender a natureza, as vidas existentes para a gente poder ter a nossa garantia.
Maria Fernanda: Por que a agroecologia veio parar em Curitiba e não está no campo?
Roberto: Justamente, a agroecologia é um movimento, ela se movimenta, ela é uma itinerância que se movimenta. Ela vai andando, percorrendo, encontrando agricultor e agricultora, puxando, envolvendo e construindo a agroecologia. Então a agroecologia é um grande projeto de construção diário, do mutirão, ajuda mútua, pesquisa e por isso que ele é poderoso.
[…]Aqui tem um componente, já fazendo a propaganda. Na sexta feira, aqui no assentamento contestado, vai ser um dia especial de campo, então, vai ser um dia onde uma parte significativa, acho que uns 8 ônibus, vão passar o dia inteiro lá.[…]Nesse dia, vai se fazer um teste de maquinaria chinesa. As máquinas são em escala pequenininha do tamanho do lote, para ele testar e ver como que seria com a mecanização chinesa dessa máquina, pode diminuir o esforço físico e o cansaço. As máquinas são mais leves, menores, que possam ampliar a produção de comida e gerar renda para os agricultores.
Então, o que é ciência, porque a que que existe disponível é do grande trator, da grande colheitadeira, do grande caminhão e tudo mais. Às vezes a colheitadeira é maior do que o lote da pessoa. Então agora, nós pensamos em uma mecanização em pequena escala de acordo com o tamanho da propriedade do agricultor. Vai ser um dia muito especial, de ciência e de campo. Então nós vamos conhecer essa experiência dessas máquinas,a experiência bonita de saúde popular, de fitoterápicos, terapia, checagem, conhecer a escola Latinoamericana de agroecologia e a cooperativa, que ela também faz melhorar, cultiva sementes, tem uma unidade de bioinsumos, assim, tem pilares de um projeto popular de agricultura.
Então, essa é a itinerância, na ideia de que vamos […]movimentando ela, mas fundamentalmente a gente aprendeu que se aprende mais fácil indo ver e com o intercâmbio é a melhor forma de aprender. Além de sentar na cadeira, ler o livro, anotar, fazer a síntese também a gente aprende, mas com o intercâmbio […] os agricultores veem. Então, a itinerância como método de fazer propaganda, motivar, ampliar o engajamento. Então vai ser muito especial também essa atividade de sexta feira e de domingo fundamental a partilha das sementes e o compromisso de nós multiplicarmos a semente pra frente.
Evelin: No fim do ano vai acontecer o ENA e é importante lembrar que o Paraná vai tem um motivo para estar acontecendo tudo isso envolvendo a agroecologia aqui no nosso estado né?
Ines: Eu acho que um dos maiores motivos porque, mas isso é também em todas as situações. Quando tem muita opressão, também existe muita resistência e nós somos um estado que sofremos muito com a monocultura, com os venenos, com os transgênicos. Quantos problemas temos. Mas em cada canto desse Paraná tem muita resistência. É essa resistência que nós fomos né, eu participei desse processo de escolha do Paraná, pois seria nós ou o Rio Grande do Sul para acolher este encontro nacional de agroecologia no final de maio do ano que vem.
Acho que é uma oportunidade também de dizer que esse estado que tem o agronegócio, o mercado, como a grande marca de propaganda. Aqui tem muita resistência, tem semente crioula, tem comunidades agroecológicas, tem luta, resistência pelos territórios e pela reforma agrária. E aqui também o Paraná é o berço de muitas organizações de luta como o MST e tantas outras que surgem aqui nesse estado. Então, acho que vai ser um momento de a gente celebrar e apresentar para o país que tem jeito, mesmo em meio a tanta monocultura e destruição, que a gente se mantenha em resistência, resistente e plantando sementes de vida para que a agroecologia possa vencer.
Edição Matheus dos Santos Machado



