Quando a tecnologia encontra o campo: caminhos para uma Economia Solidária Digital

Modo de produção presente na 22ª Jornada pode ser uma resposta criativa para o enfrentamento da lógica do capital.

Foto: Joka Madruga

Por Carolina Calixto

Para quem visita a 22° Jornada de Agroecologia, que ocorre em Curitiba (PR), de 6 a 10 de agosto, é possível adquirir diversos produtos agroecológicos e orgânicos produzidos por trabalhadores e trabalhadoras cooperados. A Economia Solidária faz parte do cotidiano de cada agricultor e produtor, gerando renda e trocas ricas de conhecimento e criação de uma rede de economia local.

A Economia Solidária se demonstra, através de diversas iniciativas no campo e na cidade, como uma alternativa à modelos de negócio e modos de produção hegemônicos no capitalismo. Este modo de produção se caracteriza pela busca de justiça social, propriedade coletiva dos trabalhadores e trabalhadoras dos meios de produção, autogestão e governança democrática nas tomadas de decisão. Projetos bem sucedidos de Economia Solidária podem ser visualizados em meios urbanos, como a Rede Mandala – centralizada em Curitiba mas atuante em todo o Paraná – ou nos meios rurais, como as Cooperativas do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

Em um contexto econômico, cultural, político e social altamente digitalizado e plataformizado, onde os indivíduos e a sociedade se veem cada vez mais inseridos nas relações digitais, seja por intervenção do uso das redes sociais, do trabalho remoto, dos aplicativos e websites que são parte de nosso cotidiano e tantos outros exemplos, a pergunta que nos resta fazer se torna: quem detém o poder dessas tecnologias e a que propósito elas servem?

Para responder a essa questão, devemos entender que as tecnologias de uso diário por grande parte da população com acesso à Internet e as infraestruturas digitais são criadas e mantidas por um conglomerado tecnológico, em que poucos possuem o poder de decisão e extraem um grande valor com dados – ou seja, informações valiosas – das pessoas usuárias das plataformas. 

Em desafio à essa lógica, se constrói a alternativa de uma Economia Solidária Digital, que visa o desenvolvimento da Economia Solidária em seu modelo tradicional para enfrentar as questões pertinentes a uma era digital. Esse modo de produção se fundamenta em escutar as necessidades dos territórios locais, das comunidades que serão atendidas e se apropria das tecnologias já existentes, bem como propõe a criação de novas tecnologias para a solução de problemas da coletividade. Ela se mostra como um convite à criatividade, a criação e a transformação de tecnologias – digitais ou sociais – para que a potencialidade do ser humano seja aproveitada, pois afinal, a crença da Economia Solidária Digital é de que o ser humano possui papel central nas relações de transformação do mundo e de sua realidade.

Foto Joka Madruga

A Economia Solidária Digital é uma oportunidade de potencializar seus negócios e expandir essa rede, fortalecendo os princípios cooperativistas através da apropriação das tecnologias disponíveis a seu alcance.

Valdenise, trabalhadora cooperada da Cooperativa dos Produtores Agroecológicos da Região da Serra do Mar e do Litoral do Paraná (Colipa), localizada em Morretes/PR, relata que a diversidade é característica marcante dos produtos da cooperativa, e que esse fato tem tudo a ver com o que significa agroecologia: “Nós produzimos e vendemos polpas, sabonetes, farinhas, geléias, a depender das frutas e das sementes da estação. A espinha dorsal nossa é a conservação ambiental, pois vemos com bons olhos ter a mata em pé.” 

Valdenise responde que, mesmo sem conhecer o conceito de Economia Solidária Digital, já fez uso das tecnologias para uma apropriação em prol dos trabalhadores cooperados: “Usamos o Whatsapp para divulgar os produtos da semana, que estarão nas lojas. Também já tivemos algumas experiências com e-commerce, e alguns produtores já usaram a (plataforma) Shopee. É importante que a gente esteja dando alcance aos produtos, sem ficar refém da tecnologia.

A cooperada também contou que a Colipa possui uma liderança feminina, e tem como preocupação as maneiras de produção do cooperativismo agroecológico, como manter agroflorestas, o compromisso com os trabalhadores, a sustentabilidade do meio ambiente por meio da conservação ambiental.

Este trabalho que já vem sendo realizado na Colipa e tantas outras cooperativas paranaenses pode ser alcançado por um público ainda maior com a Economia Solidária Digital, formando uma rede digital de apoio, renda e coalizão cooperativista digital.

Há desafios pela frente, como a alfabetização digital dos trabalhadores e formação destas pessoas nas plataformas, mas há também muito solo fértil para crescer um movimento democrático em que todos possam ter espaço para suas ideias e ideais florescerem. A Internet precisa se tornar um território de conexão, e com o trabalho plataformizado, iniciativas como a Economia Solidária Digital são enfrentamento contra a precarização.

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