Colonialismo e capitalismo estão na raiz da crise climática, alerta geógrafo na 22ª Jornada de Agroecologia

Professor Andrei Cornetta defende que modelo exploratório da natureza inviabiliza solução dentro do capitalismo e aponta a agroecologia como alternativa

Foto: Brenda Luiza

“Existe possibilidade de superação da crise ambiental no capitalismo? Não acredito.” A frase do geógrafo e professor doutor Andrei Cornetta marcou a conferência que lotou o auditório da Universidade Federal do Paraná (UFPR) nesta quinta-feira, durante a 22ª Jornada de Agroecologia do Paraná. O debate foi transferido para um espaço maior depois que o público seguiu em uma animada “marcha musical” pelos corredores da universidade.

Cornetta apresentou dados históricos e científicos para mostrar como o modelo agroexportador, surgido no século XV em meio à crise europeia, consolidou-se como um sistema de exploração da terra voltado para o lucro. Ele lembrou que, já no início do século XIX, o filósofo e geógrafo Alexander von Humboldt registrava mudanças ambientais após o avanço colonial. Passando por períodos como a Revolução Verde. Cornetta explicou que a inovação tecnológica serviu principalmente para reativar o capital em momentos de crise, e não para preservar o meio ambiente.

O Professor apresentou estudos sobre os ciclos de acumulação econômica, explicando que, em períodos de baixa acumulação de capital, o sistema aciona gatilhos para retomar o crescimento. Segundo ele, pela primeira vez na história, o eixo de acumulação deixou o Ocidente e se deslocou para o Leste Asiático, concentrando-se em nações do eixo socialista.

No Brasil, lembrou o professor, políticas como a “Marcha para o Oeste”, no governo Getúlio Vargas, contribuíram para consolidar a unidade territorial e fortalecer a identidade nacional, enquanto a modernização agrícola foi impulsionada pela Revolução Verde. Hoje, afirmou, há uma disputa ideológica em curso: parte do agronegócio se apresenta como solução para a crise ambiental e climática, apropriando-se do discurso sustentável e oferecendo respostas tecnológicas. Na prática, segundo Cornetta, isso legitima a continuidade de um modelo que tem como marca a degradação ambiental e o lucro.

Foto: Brenda Luiza

E as soluções? Existem?

Para Cornetta, a saída para a crise ambiental não virá apenas da tecnologia ou da economia, mas de mudanças profundas nas relações sociais e na forma como a sociedade se organiza. Ele critica o “mito da sustentabilidade” usado por empresas para vender produtos supostamente verdes, enquanto mantêm práticas predatórias. “Como ser sustentável em um modo de vida moderno, consumista e poluidor? Sustentabilidade, nesse contexto, acaba virando vaidade pessoal”, afirmou.

O geógrafo lembra que o conceito de desenvolvimento sustentável fala em igualdade, superação da pobreza e cuidado com as gerações futuras — objetivos incompatíveis com o modo de produção capitalista, baseado no individualismo e na concorrência. Medidas como a transição energética são importantes, mas, segundo ele, não resolvem a crise: “São paliativas, apenas gestão da crise”.

Sem condições sociais ou políticas para uma revolução, Cornetta aponta que a própria Constituição de 1988 já oferece caminhos concretos. “Eles estão nas modalidades fundiárias onde a lógica capitalista não prevalece totalmente: terras indígenas, territórios quilombolas, reservas extrativistas, áreas de desenvolvimento sustentável e assentamentos da reforma agrária. Esses territórios, diversos em cultura e produção, têm em comum três fatores: as maiores taxas de preservação ambiental do país, a produção de alimentos saudáveis e relações sociais baseadas na cooperação, e não no lucro sem fim. São essas relações sociais que tornam um território sustentável”, afirmou. Nessas áreas, estão práticas como a agroecologia, as agroflorestas e saberes milenares de manejo da floresta, sobretudo na Amazônia, exemplos vivos de que outro modelo é possível.

O geógrafo também mencionou o pensamento do líder indígena Ailton Krenak sobre o “mito da sustentabilidade”, criticando o discurso de empresas que vendem produtos como sustentáveis, mas mantêm processos de produção predatórios. “Como ser sustentável em um modo de vida moderno, consumista e poluidor? Sustentabilidade, nesse contexto, acaba virando vaidade pessoal”, disse.

A conferência fez parte da programação ambiental da Jornada, que segue até domingo (10)  Universidade Federal do Paraná – Campus Politécnico, reunindo especialistas, agricultores, movimentos sociais e lideranças para debater soberania alimentar, justiça climática e agroecologia como projeto popular para o Brasil.

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