Autoridades e especialistas defendem que a água deve ser protegida como fonte de vida e direito fundamental, apontando a transição agroecológica de Piraquara como modelo para o Brasil
Por Gregory Augusto Cunha
Reconhecer a água como fonte de vida, alimento e sujeito de direitos foi o ponto de partida do seminário realizado em 7 de agosto de 2025, no auditório Leo Grossmann, no Centro Politécnico da UFPR. O encontro reuniu agricultores, pesquisadores, técnicos e autoridades para discutir como a gestão justa e sustentável da água se conecta diretamente à transição agroecológica.
A proposta, apresentada na 5ª Conferência Nacional do Meio Ambiente, em Brasília, busca garantir que a água seja tratada não apenas como recurso econômico, mas como patrimônio comum, essencial para a produção de alimentos saudáveis e para a manutenção de ecossistemas.
O ecodesigner e produtor agroecológico Luiz Gonçalves destacou que a experiência de Piraquara, responsável por 70% da água consumida por mais de 3 milhões de pessoas na Região Metropolitana de Curitiba, ilustra essa relação. “A agroecologia depende de água limpa e abundante. Preservar mananciais é preservar a base da vida e da produção de alimentos”, afirmou.
Para o promotor de Justiça Diogo César Porto Silva, presidente do Pró-Metrópole, a proteção das águas também é questão de justiça econômica. Ele lembrou que o valor pago pela exploração do recurso está abaixo do que determina a Constituição, prejudicando comunidades guardiãs dos mananciais. “Existem prerrogativas legais que oferecem oportunidade de aplicação justa dos recursos que provêm da exploração da água pelas concessionárias, e em Piraquara este tema possui um defensor. Piraquara recebe menos dinheiro do que merece pelas águas”, afirmou.
A advogada e ambientalista Maude Nancy, aposentada pela Secretaria Estadual do Meio Ambiente do Paraná e ex-diretora do Parque Nacional da Ilha Grande, reforçou: “A água é alimento e nutriente, não só para o ser humano, mas para todas as formas de vida. Sem ela, não há agroecologia possível. Nós somos água, somos compostos por água. Proteger mananciais de abastecimento é proteger um alimento fundamental para todos os seres da natureza”.
A bióloga da Sanepar Ana Cristina Rego Barros, que também foi gestora socioambiental do Centro de Educação Ambiental dos Mananciais da Serra em Piraquara, apresentou dados históricos: “No século XIX, os mananciais adequados para o consumo em Curitiba eram escassos. A primeira captação pública de água foi feita nos mananciais da Praça Rui Barbosa, levando água até a torneira pública que ainda hoje está na Praça Zacarias”. Ela acrescentou que o crescimento populacional, somado ao saneamento precário da época, poluiu os poços da capital, levando, em 1904, à solução dos mananciais de Piraquara.
Já o técnico em saneamento ecológico Rafael Gomes dos Santos chamou atenção para o uso racional: “Precisamos decodificar, saber observar e entender a natureza para imitá-la. A água não pode ser olhada de forma pontual; ela é sistêmica. Não faz sentido utilizá-la de forma banal, como dar descarga com água potável”.
O seminário reforçou que água e agroecologia são indissociáveis e que reconhecer a água como sujeito de direitos é garantir soberania alimentar, saúde pública e equilíbrio ambiental.



