Realização de plebiscito popular é fundamental para debate sobre realidade brasileira, destacam movimentos sociais

Mobilização nacional envolve debate sobre redução das jornadas de trabalho, fim da escala 6×1 e taxação dos super ricos

Por Ana Luiza Campos e Karina Ernsen

Foto: Guilherme Araki 

Um dos destaques da programação da 22ª Jornada de Agroecologia do Paraná foi a Conferência “Jornadas em Luta”, aconteceu na manhã desta sexta-feira (08) no auditório da UFPR, Campus Politécnico. O evento reuniu diferentes movimentos sociais do estado do Paraná e de outros estados. O plebiscito popular em vigor até outubro foi a principal pauta debatida na conferência. 

À frente da conferência estavam Igor Felipe dos Santos, do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), coordenador da Comissão Executiva Nacional dos Plebiscitos, e Bruna Zimpel, da Direção Nacional do MST. De acordo com Igor, um dos maiores desafios a ser enfrentado na política brasileira é o imperialismo norte americano como um dos principais obstáculos ao desenvolvimento das políticas brasileiras. “O momento atual abre oportunidade de ​​colocarmos na agenda do dia a necessidade de um Projeto Popular para o Brasil”, aponta.

Foto: Guilherme Araki 

A proposta do plebiscito popular tem sido defendida como a metodologia e ferramenta escolhida para congregar frentes em favor de lutas em comum: a questão do trabalho e a questão do latifúndio. “Nunca antes tivemos uma aliança tão clara e um arco de alianças tão amplo como temos agora no plebiscito popular”​, reforça Igor. O plebiscito popular foi apresentado como um instrumento de participação popular, com intenção de debater coletivamente assuntos de importância para toda a sociedade, e um instrumento capaz de colocar o povo brasileiro no centro de decisões que afetam diretamente suas vidas. De acordo com o militante, o plebiscito é uma ferramenta de luta e educação popular que fortalece a soberania nacional. 

Em votação neste ano, o plebiscito envolve temas importantes para o povo brasileiro como a redução das jornadas de trabalho, o fim da escala 6×1, a taxação dos super ricos e redução de impostos para os trabalhadores. Igor destacou que essas pautas congregam uma série de bandeiras de lutas que fazem parte de um projeto muito maior: “O projeto popular não é uma somatória de pautas, é o resultado da correlação das forças da luta de classes, uma construção coletiva do nosso povo e da nossa classe, e a síntese das demandas mais imediatas com a necessidade de mudanças estruturais”.

Bruna Zimpel destacou a dificuldade cada vez maior dos movimentos conseguirem conquistas significativas. “​No passado, lutamos contra o latifúndio improdutivo, hoje lutamos contra o agronegócio, que possui um programa massivo de propaganda.​”​ Em diálogo com o campo, Bruna enfatizou que quando se fala sobre taxação de grandes fortunas está se falando também sobre o agronegócio. “O agronegócio no Brasil possui uma série de isenções fiscais em exportações e importações, inclusive de agrotóxicos, portanto o agronegócio também precisa ser taxado”.

Bruna incluiu camponeses e camponesas que estão à frente da luta pela terra, nos debates trabalhistas. “Nós todos fazemos parte da sociedade, nossa bandeira é a Reforma Agrária Popular, o que significa também melhores condições de trabalho na área urbana.” Ela destacou a participação massiva das pessoas do campo nas marchas, mobilizações, debates, nas campanhas de solidariedade. “Nós somamos em todos esses processos e agora nós somamos também na construção do plebiscito popular”. diz.

Foto: Guilherme Araki 

Após a fala dos conferencistas, a mesa abriu uma rodada de socialização das iniciativas e mobilizações nos territórios de luta. Sandra Ferrer, do Assentamento Eli Vive (Londrina) relata que em seu território foi organizada uma força tarefa para atender a demanda do Plebiscito, por entender a importância dessa luta. A campesina contou que foram disponibilizadas urnas nas escolas, nos espaços sociais, e inclusive nas festividades e arraiás neste mês de agosto. Flor destacou a importância das formações de base aliadas a esse movimento. “Se a gente não ergue a nossa voz, a gente não vai conseguir colocar as nossas pautas”, diz.

Levante Popular trouxe a perspectiva da juventude ao debate. O movimento de jovens tem concentrado esforços em torno das pautas do plebiscito, partindo da compreensão de que as lutas trabalhistas podem levar “a esquerda​ de volta às ruas”. Segundo ela, a estratégia que tem funcionado é analisar o contexto de cada território. O Levante tem realizado Festivais de cultura e gincanas para divulgação do plebiscito popular. Ela destaca a importância de compreender cada território para melhor se comunicar com o público e continuar o trabalho de base com as juventudes.

Foto: Guilherme Araki 

A Central Única dos Trabalhadores (CUT) e Sindicato dos Trabalhadores da Educação do Paraná (APP-Sindicato), expôs o grande número de urnas disponibilizadas pelo sindicato, além da produção de adesivos com QR code para votação. Ela reforçou a importância de que cada pessoa, cada militante, some esforços para abranger o debate a cada vez mais pessoas. Já representantes do Frente de Organização dos Trabalhadores (FORT) destacaram ações de mobilização nas periferias de Curitiba. “Pela garantia de uma vida digna e com lazer, vamos em busca do nosso poder popular!”

A luta é também por visibilidade

A coordenadora do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR) Annemone Santos fez um grito por reconhecimento. Ela destacou a importância dos catadores, que limpam as cidades e preservam o meio ambiente, mas seguem invisíveis. “Quando se organiza um evento, chamem os catadores. Eles são seres humanos”, enfatiza. De acordo com a militante, os catadores lutam por visibilidade, pelo fim da exploração e pelo direito de existir como trabalhadores, já que muitos deles não compreendem termos como “economia circular” ou ‘lixo zero’. “Levar informação sem que a gente entenda não adianta”, reforça. Ela destaca que dar voz aos catadores vai além da inclusão no discurso, é reconhecê-los como protagonistas na luta de classes, resistindo mesmo sem serem ouvidos. “A cidade não é um hospital, é um campo de batalha. E os catadores estão na linha de frente!”, conclui Annemone, ressaltando que políticas públicas e educação precisam falar a língua dessas pessoas, não a dos debates elitizados.

Foto: Guilherme Araki 

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