Espaço remonta 500 anos de história do povo brasileiro e reflete sobre o futuro que queremos
Por Emanuelle Viana
Para quem visita a 22ª Jornada de Agroecologia é possível, em alguns minutos, percorrer a história do Brasil. Entre a programação diversa do evento que acontece em Curitiba (PR), no Centro Politécnico da Universidade Federal do Paraná (UFPR), até o dia 10 de agosto, uma das atrações que tem reunido muitos visitantes é o Túnel do Tempo.
Estruturado em quatro eixos, a instalação visita períodos históricos do país, que passam do pré-colonialismo à atualidade e chegam ao “projeto de sociedade que queremos e o futuro que estamos construindo”, como explicam Cassiano Rodrigo Capes e Nathalia Tiemy Yamaguchi, coordenadores da organização do Túnel e membros do setor de educação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). O projeto contou também com a contribuição dos coletivos Marmitas da Terra e Mãos Solidárias, da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) e a UFPR.
Com um resgate do momento anterior à invasão portuguesa ao Brasil, o primeiro eixo apresenta elementos que fazem parte da cultura de diferentes povos originários, que somavam entre 5 e 7 milhões de indígenas até 1500. Com palavras Tupi Guarani e Kaingang distribuídas pelas paredes e lendas como Curupira e Vitória-Régia descritas, o espaço conta sobre a resistência, o modo de vida, a união e relação de cuidado com a natureza dos povos tradicionais.
“A gente tem que se unir, resgatar os nossos valores e tradições, porque nas nossas veias escorre sangue indígena e negro. Temos que trazer essas memórias, essas vidas de forma presente no nosso cotidiano”, diz o trabalhador da Escola Latino Americana de Agropecuária (ELAA), um dos organizadores do eixo, Jackson Silva.
Para Cibele Nunes, membra do Coletivo Marmitas da Terra e uma das organizadoras do Túnel do Tempo, o segundo eixo retrata a época “mais triste da nossa história”, de 1500 a 1889. Ela destaca que foram 388 anos de devastação da natureza, marcados pela colonização do país, escravização de negros e indígenas, junto da privatização da terra e de seus produtos, e a expansão de um capitalismo mercantil e agroexportador. “A história do Brasil não é uma poesia, como [Ailton] Krenak falou, ‘O Brasil foi inventado, ele não foi descoberto”, destaca Cibele.
Da queda da monarquia à democracia da atualidade, o terceiro eixo traz momentos que vão desde após a abolição da escravatura ao início do desenvolvimento industrial, a massificação da exploração da natureza, a ditadura militar e o surgimento de movimentos populares. Como uma das características do período abordado neste espaço, está o neoliberalismo e seus impactos na relação dos seres humanos com a natureza. O Túnel do Tempo evidencia a continuidade de exploração da natureza nos tempos atuais com a expansão do agronegócio. No entanto, também destaca, a resistência de agricultores e agricultoras que lutaram pela terra.
“É um período que marca muito essa questão da poluição, degradação dos recursos naturais, mas também a busca de uma sociedade alternativa, que pode ser mais justa, humana e positiva, de harmonização da relação com a natureza”, conta um dos organizadores do espaço, Alfio Brandenburg.
A reflexão final do Túnel é apresentada no quarto eixo, que destaca a importância de um projeto popular para o Brasil. Pautado na reforma agrária, agroecologia, emancipação humana, respeito e cuidado com a natureza, os organizadores do Túnel destacam que a construção se baseia no povo organizando o povo e na união da classe trabalhadora.
O ato de inauguração na quarta-feira (06) contou com a presença do Leonardo Boff. O teólogo destacou a importância da economia orgânica, democracia participativa, o cuidado com a casa comum e a juventude. “A lógica é produzir preservando a natureza e distribuir, porque o ideal é que todo mundo tenha o suficiente e o decente para viver, de forma solidária com a natureza e entre todos nós, seres humanos”, diz Boff. Presente no lançamento, a vice-reitora da UFPR, Camila Fachin, reforçou o compromisso da Universidade com as pautas defendidas na Jornada.



