Atrações artísticas na 22ª Jornada de Agroecologia do Paraná afirmam a cultura e soberania nacional

Artistas apontam que a cultura e a agroecologia possuem raízes em comum,  como suas ancestralidades e o compromisso com a transformação social

Foto: Lia Bianchinni

Por Ana Luiza Campos
Do coletivo de comunicação da Jornada de Agroecologia

Quem visitou a 22ª Jornada de Agroecologia do Paraná pode reconhecer que a agroecologia é ciência, prática, mas também cultura.​ Entre os dias 06 a 10 de agosto um dos maiores eventos de agroecologia do país mostrou mais uma vez que a arte é um instrumento poderoso de expressão, mobilização e transformação. Entre debates, oficinas e trocas de saberes, todos os espaços de circulação se tornaram palcos ocupados por artistas que carregam em suas letras, expressões, cores e ritmos. Diversas intervenções culturais buscaram mostrar que é possível associar a denúncia das desigualdades e o anúncio de um mundo possível com a arte.

Aqui a gente traz alguns dos olhares de artistas sobre como veem a relação da cultura com a agroecologia. 

Na noite de sexta (08), o público vibrou com dois grandes nomes da música brasileira, cujas obras dialogam diretamente com a realidade do povo. Dow Raiz, artista curitibano que surgiu nas batalhas de rap da periferia, trouxe para o palco da Jornada suas rimas afiadas, que misturam denúncia social e ancestralidade. As músicas do rapper falam de resistência, desigualdade e ecoam as vozes das periferias e do campo.  ​”​Um movimento como esse da Jornada mostra como a gente é forte, os movimentos independentes principalmente acabam dando espaço pra gente se mostrar e mostrar o quanto a gente é grandioso”, destaca o artista. 

Foto: Pietra Spindola

Junto dele, o músico paulistano Iago Oproprio também chegou ao palco provando que a cultura popular é um território fértil para a conscientização. O pai do artista foi um dos fundadores do Coletivo Dolores Boca Aberta, um grupo  de artistas trabalhadores na periferia de São Paulo atuantes há mais de 23 anos. Segundo o artista ​”​esse chão foi minha formação, a luta, a realidade de músicos, poetas, e isso me dá matéria para arte que eu faço hoje”, diz. Maioria na plateia, os jovens relatam que a arte do músico tem contribuído para inspirar a expressão juvenil. 

Foto: Quiara Camargo

Outro destaque da 22ª Jornada foi o Bloco Afropretinhosidade. O bloco surgiu da necessidade dos pretos de Curitiba terem seu próprio espaço, em meados de 2014. Chica da Silva, vice-presidente do bloco, conta:  “Nos reunimos com a possibilidade de formar um grupo só de pessoas pretas. A gente busca trazer um conhecimento da nossa cultura negra, dos nossos ancestrais, através dos tambores. Cada vez que tocamos nossos tambores, estamos fazendo ligação direta com os nossos ancestrais, e a partir  da oralidade nós ensinamos às nossas crianças através da música, através do toque, da dança e do canto”, comenta. A apresentação do Bloco foi no sábado (10). 

Foto: Lia Bianchini

Diva Daiana, da Diretoria do Bloco Afropretinhosidade, destaca a necessidade de desmistificar a crença de que Curitiba não tem pessoas pretas: “​Nós somos a capital com maior número de pessoas negras no Sul do Brasil. Curitiba é preta, sim. Curitiba é linda, ancestral, e a nossa cultura e os nossos tambores ecoam pelas ruas de Curitiba, mostrando nosso poder, a nossa potência, a nossa alegria, a nossa garra e principalmente, que somos reis e rainhas”, complementa.

A liderança conecta a luta do bloco e do povo preto com as lutas pela terra e por soberania. “Hoje estamos junto com a luta do movimento dos trabalhadores Sem Terra, nós somos resistência, somos terra, somos pulsão”: E Chica complementa. ”Somos natureza, somos o povo original, somos sementes. E vemos que nossa luta é igual”.

A cantora Janine Mathias retornou a Jornada esse ano com quatro artistas negras do samba como convidadas.. Juntas elas fizeram uma apresentação cheia de emoções. Segundo Janine, estar se apresentando na Jornada pela 2ª  vez foi como estar em irmandade e estar em casa. “A Jornada também traz esse lugar que a gente afirma o que a gente acredita, o que a gente tá comendo, o que a gente tá bebendo, com quem a gente está andando, e principalmente que a gente pode não estar o tempo todo do lado dessas pessoas, mas a gente tá ao lado delas”, diz a cantora curitibana ao enfatizar a importância do evento.

Foto: Quiara Camargo

Dri Gomez, cantora que também se apresentou, deu seu depoimento sobre a experiência se apresentar na Jornada de Agroecologia: “Estar aqui hoje pra mim é uma representatividade gigantesca, e fico muito feliz em saber o que essas pessoas que estão aqui hoje fazem pela biodiversidade, e fazem não só pelo Paraná, mas pelo Brasil.  A cantora Thaísa Milo deixa uma mensagem para a juventude: “Que vocês nunca percam a capacidade de sonhar”.

Foto: Quiara Camargo

A 22ª Jornada de Agroecologia do Paraná provou, mais uma vez, que cultura e agroecologia possuem raízes em comum. Em comum, as e os músicos destacam que,enquanto houver artistas que cantam a terra e agricultores que cultivam esperança, haverá caminho para um futuro onde a justiça social e ambiental andem de mãos dadas.  

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