A luta por justiça social e o combate à crise climática são pilares comuns da agroecologia e da universidade pública, destaca a vice-reitora. Em entrevista ela detalha o projeto piloto da UFPR para adquirir alimentos agroecológicos para o restaurante universitário.
Para a vice-reitora da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Camila Fachin, a agroecologia e a universidade possuem diversos pilares em comum. “A agroecologia não é só a questão da produção de alimentos saudáveis, mas é o movimento que luta por justiça social e também o combate à crise climática e à devastação ambiental. E esses são pilares de luta muito importantes para a universidade pública, que tem esse papel social, essa responsabilidade de tratar desses temas, então de oferecer uma formação para os nossos alunos não só técnica como uma formação cidadã”, destaca.
O Centro Politécnico da UFPR sediou a 22ª Jornada de Agroecologia do Paraná entre os dias 06 a 10 de agosto. Presente na sessão solene na Assembleia Legislativa do Paraná e seminário, agendas da programação da Jornada, a vice-reitora enfatizou a preocupação da universidade pública na formação de quadros qualificados e do debate sobre a produção de alimentos saudáveis.
Em entrevista para a comunicação da 22ª Jornada de a vice-reitora da UFPR reflete sobre a universidade sediar, pela 6ª vez, a Jornada, sobre o legado dos 20 anos do curso superior de agroecologia da UFPR e conta sobre os passos iniciais para implementação do projeto piloto em um restaurante universitário de compra de produtos agroecológicos e trabalho de cooperadoras da agricultura familiar. “Todos os lados ganham com isso”, destaca Camila.
Veja a entrevista completa.
Você relatou que a agroecologia e a universidade pública possuem pilares em em comuns, quais são estes pilares?
Camila Fachin: A gente se identifica muito com o movimento da agroecologia, porque a agroecologia não é só a questão da produção de alimentos saudáveis, mas é o movimento que luta por justiça social e também o combate à crise climática e à devastação ambiental. E esses são pilares de luta muito importantes para a universidade pública, que tem esse papel social, essa responsabilidade de tratar desses temas, então de oferecer uma formação para os nossos alunos não só técnica como uma formação cidadã. E para além disso, estar de portas abertas para a sociedade, para o povo, para a comunidade, e fazer essas trocas que não só ajudam com quem a gente está fazendo a interlocução, mas também engrandecem a própria universidade.
O curso superior em tecnologia da agroecologia da Universidade Federal já contabiliza mais de 20 anos de existência. Qual o legado do curso para a sociedade brasileira, e em especial, para o estado do Paraná que ainda mantém uma forte identidade agropecuária?
Camila Fachin: A agroecologia é também um movimento de respeito à terra, de respeito ao meio ambiente e da produção de alimentos mais saudáveis. Então como médica eu não poderia deixar de enfatizar que são os alimentos mais saudáveis que realmente fazem com que a gente tenha prevenção de vários tipos de doenças. O nosso curso de agroecologia nesses 20 anos faz essa interface com os diferentes movimentos, com o movimento da agricultura familiar, o movimento das cooperativas populares, e ajuda a alavancar também esses movimentos. Com um perfil do estado ainda bastante explorador da natureza é papel da universidade também fazer essa discussão crítica sobre qual será o melhor modo da produção dos alimentos para que a gente tenha a conservação do nosso planeta e a saúde das pessoas que recebem esse alimento. Então, a universidade entra com pesquisa, com extensão, com dados científicos, ciência, para se somar à essa discussão.
É a 6º vez que a Universidade Federal do Paraná abraça a realização da Jornada de Agroecologia. O que a universidade ganha ao sediar um evento como esse e contribuir para a ponte entre a agroecologia e a cidade?
Camila Fachin: A universidade ganha muito, com certeza. Hoje, um pequeno exemplo foi essa mesa agora pela manhã, que a gente teve reflexões profundas e muito necessárias no momento atual. As palavras do [teólogo] Leonardo Boff, que nós precisamos olhar para a questão da crise ambiental, da crise climática, porque disso depende a própria sobrevivência de nós, seres humanos. Então, essas discussões riquíssimas personalidades como Leonardo Boff, Makota Celinha, isso tudo contribui muito para a formação da nossa comunidade universitária.
E a sociedade em geral também ganha muito com essas discussões, trazendo à luz temas tão importantes, discussões tão necessárias e a gente precisa trazer dados científicos, pesquisas, contrapor com a realidade das famílias que estão no campo fazendo a produção e fazer essa discussão de uma maneira respeitosa, de uma maneira racional, sem regressões, o que hoje tem sido cada vez mais difícil. Então eu acho que todo mundo ganha quando a gente recebe a Jornada de Agroecologia e a gente gostaria muito que ela sempre acontecesse aqui dentro da UFPR. A universidade tem hoje sete campos em Curitiba, mais seis campos fora da capital, no interior e no litoral. A UFPR segue de portas abertas para receber a Jornada de Agroecologia.
Foi anunciado que UFPR e Jornada celebram um protocolo de intenções sobre fornecimento de alimentos agroecológicos para os restaurantes universitários. A partir de qual compreensão sobre necessidades estudantis e da sociedade que a UFPR elabora este protocolo e quais são as próximas etapas?
Camila Fachin – Já há alguns anos a gente tem tido várias discussões dentro da universidade em relação à terceirização dos nossos restaurantes universitários, e o que isso acarreta para os trabalhadores dos restaurantes, a precarização das relações de trabalho dessas pessoas. E recentemente a gente teve uma crise importante, momentos de crise são também são momentos de repensar e renovar, que nos levou a refletir sobre como a gente poderia buscar alternativas à terceirização. Existe uma lei que os órgãos públicos têm que fornecer 30% dos produtos vindos da agricultura familiar [Programa Nacional de Alimentação Escolar], mas só isso é muito pouco. Então, reunidos com MST e Marmitas da Terra, pensamos em trazer mais produtos da agricultura familiar para os nossos restaurantes universitários e com isso trazer comida saudável para os nossos estudantes.
Nessa conversa surgiu a ideia da gente utilizar as cooperativas populares para fazer também o preparo e o servir desses alimentos, para que todo esse processo ele não vise simplesmente o lucro de uma empresa externa e que os agricultores eles tenham a garantia de comercialização de seus produtos. Então, numa só ação temos que agricultores familiares vendem seus produtos, as cooperativas populares possam exercer um trabalho digno e de qualidade dentro dos nossos restaurantes e a Comunidade UFPR receba uma comida que é muito mais saudável. Então todos os lados ganham com isso.
Em que fase está este protocolo de intenções? Quais são os próximos passos?
Camila Fachin: A gente está nas primeiras tratativas, mas o nosso plano é que, ao fim desse contrato emergencial que a gente tem agora, que é um contrato de 150 dias, em janeiro de 2026 a gente já tenha esse projeto acontecendo como um piloto em um dos nossos quatro restaurantes universitários da cidade de Curitiba.
E o que isso significa a universidade pública ofertar alimentos agroecológicos, com trabalho de cooperados da agricultura familiar, para o corpo discente e a sociedade?
Camila Fachin: Significa muito. Significa que a gente se junta e pensa junto, a gente busca soluções e pode encontrar soluções que beneficiem todos os lados, soluções que não só visam o lucro de algum. Esse é um grande ensinamento. Essa gestão da UFPR, que assumiu em dezembro de 2024, está comprometida a resgatar a responsabilidade social da universidade. E eu acho que este protocolo pode ser um grande exemplo para que esse piloto se dissemine por outras universidades públicas federais no nosso Brasil.



