A herança das guardiãs: mulheres e a partilha de sementes crioulas na 22ª Jornada de Agroecologia 

Uma prática campesina ancestral, a partilha e a troca de sementes crioulas, é uma linda celebração à vida e à nossa casa comum, com fundamental importância para as mulheres. 

Por Gregory Augusto Cunha, do Coletivo de Comunicação da Jornada de Agroecologia  

Momento da partilha das sementes durante a 22ª Jornada de Agroecologia. Foto: Diangela Menegazzi


A 22ª Jornada da Agroecologia reconheceu a importância da luta protagonizada pelas mulheres na defesa, guarda e multiplicação de sementes crioulas. Com uma potente participação feminina, diversas regiões se reuniram e fizeram um importante momento de festa e reconhecimento político no último dia da 22º Jornada de Agroecologia, 10 de agosto, no Campus Politécnico da UFPR, em Curitiba.

Sabemos que tanto homens quanto mulheres têm papéis importantes, no que diz respeito ao cuidado e multiplicação de sementes crioulas, porém a grande maioria dos relatos de comunidades tradicionais apontam para o protagonismo das mulheres como as principais guardiãs e multiplicadoras de sementes crioulas. Presentes nos cinco dias na Jornada, as guardiãs de sementes, como sempre em toda a Jornada de Agroecologia, fizeram um papel maravilhoso, trazendo de seus territórios e representações, uma diversidade colorida e fértil de sementes.

Foto: Gregory Augusto Cunha

Vinda da cidade de Piên (PR), na região sudeste do estado, a guardiã Bárbara Kaminski chega alimentando o sonho da partilha e justiça, participando pela primeira vez da jornada. “Muita gratidão por estar aqui com outros guardiões mais antigos nos quais a gente se inspira para dar continuidade, pela mãe terra e essa esperança que elas trazem consigo, né. A semente guarda em si o milagre da vida, então, cada semente contém sua história, a espécie, a tradição representa muito para todos os povos tradicionais.”

Foto: Gregory Augusto Cunha

Dentro da diversidade de povos indígenas presentes, a guardiã  Nazany Martins Kunha, do povo Avá-Guarani, vinda do oeste do estado, destaca suas representações:“Eu sou mulher indígena do oeste do Paraná, representante da Associação Indígena de Coporarecá, da Terra Indígena Guasu Guavirá, faço parte da organização das mulheres e atuo também assessorando o projeto Opaná entre as aldeias de Terra Roxa, Guaíra e Santa Helena. Tentando mais uma vez trazer a nossa cultura, as nossas sementes, que são os nossos antepassados, e trabalhamos nessa questão de alimento sustentável, trabalhando na hortaliças e também nos artesanatos, e assim a gente vem levando a nossa luta adiante com as mulheres indígenas”

Durante o ato, realizado no gramado ao lado do palco principal, foi montada no chão, uma mandala de sementes contendo milho, arroz e feijão, dentre outras, além de uma diversidade de mudas de árvores nativas. “Aqui sobre vossos peitos, persistiremos como a muralha […]. Somos guardiãs da sombra, das laranjeiras e das oliveiras, semeando ideias, como fermento da massa” são frases do poesia declamada por Sirlene Moraes, produtora agroecológica do Assentamento Guanabara, em Imbaú. 

Foto: Lia Bianchini  

“Nós estamos sendo convocados pela humanidade que ainda existe em nós, militantes dessa causa, a nos levantar em luta em defesa do povo palestino, em defesa do território palestino.” A luta em defesa dos territórios e dos povos, esteve presente na fala de Armelindo da Maia, dirigente do Setor de Produção do MST, que esteve na Palestina. “Todos nós estamos acompanhando a Palestina que está passando por um em novo genocídio. Há mais de 70 anos aquele território é disputado pelo capital”. 

Sirlene Moraes completa: “É por isso que nós viemos todos os anos para cá, trazemos de nossos territórios, nós vamos resistir como camponeses sem terra. Como camponeses da agricultura na família. Como camponeses urbanos que estão em seus locais pequenos, mas que cuidam das sementes. Porque as sementes não devem servir ao sistema capitalista. Elas são do povo. O dia que nós camponeses, perdermos o poder das sementes, pode ter certeza que vamos se tornar escravos. Que é isso que o sistema capitalista quer.”

Foto: Lia Bianchini  

“Eu quero aqui com vocês como camponeses que nós assumimos um compromisso ao pegar cada semente que vamos levar, que nós plante elas, que nós cuide delas como sempre fizemos e que na próxima jornada traga essa semente e distribua. Nós não somos donos da semente, não somos empresas, somos pessoas multiplicadoras. As sementes são patrimônio da humanidade. Viva a agroecologia! Viva as sementes!”, finalizou a camponesa, que também integra a direção do MST no Paraná. 

Foto: Lia Bianchini

Ao final da mística, foram plantadas duas árvores sagradas que carregam em si importantes simbologias de respeito aos povos, territórios e suas lutas; Uma muda de Oliveira (Olea europaea) em respeito ao povo palestino e em confirmação da parceria entre a Jornada de Agroecologia e Universidade Federal do Paraná, foi plantada uma Araucária (Araucaria angustifolia). A proposta é que ambas as árvores possam servir de memorial, sendo tocadas, regadas e cuidadas em respeito à luta dos povos por territórios e pela memória da própria jornada. Rumo a 23º Jornada de Agroecologia.

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