Contra a fome e por comida de verdade, 20 toneladas de alimentos são doadas durante a 19ª Jornada de Agroecologia

Alimentos produzidos por acampamentos e assentamentos da reforma agrária do Paraná devem beneficiar famílias de nove comunidades de Curitiba e Região Metropolitana.

Por Franciele Petry Schramm

Solidariedade. Foi essa a palavra formada na disposição das mais de 100 caixas coloridas que armazenavam quase 20 toneladas de alimentos distribuídos na 19ª Jornada de Agroecologia neste dia 25, em Curitiba. E foi esse o sentimento de quem produziu, distribuiu ou recebeu uma variedade de frutas, verduras, legumes, grãos e pães em uma ação que uniu movimentos sociais do campo e da cidade.

Em frente ao palco principal da Jornada, os alimentos produzidos por trabalhadores rurais beneficiados pela reforma agrária foram abençoados pelo frei Leonardo Boff, que durante a manhã participou da programação da Jornada de Agroecologia. De lá, foram transportados para distribuição em nove comunidades e ocupações urbanas de Curitiba e Região Metropolitana.

Os alimentos são fruto da produção de acampamentos e assentamentos de diferentes partes do Paraná e até de fora do estado: o arroz orgânico distribuído na ação foi produzido no Rio Grande do Sul. Foram contempladas cozinhas comunitárias das comunidades Vila Formosa, Nova Primavera, Vila União, da ocupação Povo Sem Medo, acampamento Marielle Franco, e a associação de catadores de material reciclável do Parolin. Os alimentos também foram doados ao coletivo Marmitas da Terra, uma iniciativa que semanalmente produz mais de 1,1 mil refeições distribuídas na capital paranaense.

Da 19ª Jornada de Agroecologia, os alimentos foram transportados em caminhões direto para as comunidades beneficiadas / Foto: Juliana Barbosa

A ação foi promovida pela União Solidária, uma articulação que reúne o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), sindicatos, partidos, pastorais sociais e universidades para promover ações de combate à fome e à vulnerabilidade social nas periferias dos centros urbanos. Além dos alimentos, uma parceria com o Sindicato dos Petroleiros do Paraná e Santa Catarina (Sindipetro) também contribuiu com 50 cargas de gás para serem distribuídas entre as comunidades.

Joabe Mendes de Oliveira, integrante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e um dos integrantes da União Solidária que organizou a ação, explica que essa é uma forma de contribuir com a famílias que, por conta da alta taxa de desemprego e pela alta no preço dos alimentos, estão sem perspectivas nessa retomada com a queda da intensidade da pandemia de Covid-19. “Essa é uma forma de garantir um respiro para essas associações para que consigam fazer a partilha e a alimentação nos seus bairros”, aponta.

Combate à fome

A Jornada de Agroecologia também foi uma oportunidade de os moradores das comunidades beneficiadas conhecerem os agricultores e agricultoras que estão produzindo e praticando solidariedade. “Dessa forma a gente conseguiu fazer uma união entre trabalhadores e trabalhadoras do campo e da cidade, para que eles reconheçam que a luta é a mesma e que nos momentos de crise é o povo trabalhador organizado quem resolve essas necessidades básicas”, avalia Joabe.

Integrante do MST e da União Solidária, Joabe Mendes foi um dos organizadores da ação / Foto: Juliana Barbosa

Um dos coordenadores do Movimento Popular de Moradia (MPM), Valdecir Ferreira esteve na Jornada ajudando a organizar o envio das doações para a comunidade onde mora, a Ocupação Nova Esperança, na cidade de Campo Magro. “É tudo fresquinho, não é algo que está na prateleira esperando, não. E é sem veneno”, lembra.

Desde o início da formação da Nova Esperança, em maio de 2020, e em meio à pandemia de Covid-19, a União Solidária tem sido importante aliada das 1200 famílias – cerca de 6 mil pessoas – da comunidade. Por meio da distribuição de alimentos, a cozinha comunitária da ocupação distribui em média 400 refeições em dois dias por semana. Em um terceiro dia na semana, as refeições são distribuídas pelo coletivo Marmitas da Terra.

“Nós atribuímos o fato de ninguém na nossa comunidade estar passando fome à parceria com o MST e com outras organizações parceiras.  Então para nós essas ações tem sido o grande referencial nessa luta contra a fome nesse momento de crise financeira e sanitária”, destaca Valdecir.

Valdecir Ferreira, liderança do MPM, da Ocupação Nova Esperança, em Campo Magro / Foto: Juliana Barbosa

Integrante do MST  e do Coletivo Marmitas  da Terra, Adriana Oliveira destaca a importância desse tipo de ação une o campo e a cidade. “No momento em que a gente está com 33 milhões de pessoas passando fome no Brasil, no momento da pandemia – totalmente adverso -, nós camponeses, agricultores e agricultoras do movimento organizado, junto com muitas outras organizações, estamos dizendo que é possível, sim, solucionar a fome, a partir da organização e de processos coletivos”.

E mais do que matar a fome, Adriana lembra que a distribuição dessas refeições é uma ação mais ampla dentro de um projeto político de organização popular. “Essa porta [de distribuição das marmitas] fez com que várias comunidades fossem se movimentando. Começou com a marmita, depois ajudamos na estruturação de cozinhas comunitárias, e hoje a própria comunidade toca essa cozinha”, explica.

Mais que alimento, é resistência!

Parte dos alimentos distribuídos na ação realizada neste sábado vieram do lote da assentada da reforma agrária Sandra Ferrer. Conhecida como Flor, a trabalhadora rural é uma das coordenadoras estaduais do MST pelo Assentamento Eli Vive, de Londrina (PR) e contribuiu com o envio de abóboras.

Sandra Ferrer, a Flor, do assentamento Eli Vive, em Londrina / Foto: Juliana Barbosa

Ela conta que, apenas da região Norte do Paraná, foram coletadas cerca de 4 toneladas de alimentos. Alface, repolho, mandioca, batata doce, laranja, feijão, fubá e mais uma diversidade de produtos foram produzidos pelo assentamento e por acampamentos do entorno, como do acampamento Maila Sabrina, na cidade de Ortigueira.

Mas destaca que mais do que os alimentos, o que chega às famílias das comunidades urbanas é esperança. “Junto com a abóbora vem muita vontade de que as coisas mudem no nosso país, a esperança para que esse povo possa ter um emprego decente para comprar sua alimentação com qualidade, vem o nosso trabalho e luta para que a agroecologia aconteça”, destaca. E reforça: “Todo esse alimento vem carregado de muita energia boa. Antes de vir para cá, a gente foi lá na roça e pegou o melhor repolho, a melhor alface e trouxemos para eles. Não estamos doando o que sobrou, estamos distribuindo o que temos de melhor”. 

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